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sábado, 17 de janeiro de 2009

O massacre ainda não cessou

por Vilauba Herrera

Em uma discussão com um leitor do blog, fiz minhas críticas a Israel, sua violência, seu preconceito e sua covardia. Em dado momento, o leitor citou o meu "anti-semitismo" e as manifestações da imprensa, favoráveis ao povo palestino, unido aos "terroristas" do Hamas. Achei que isso não aconteceria, fui ingênuo. Acreditava que, após tantas demonstrações de agressividade e desrespeito às leis da ONU, a pecha de vítima já não caberia mais ao estado judeu.
Bom, aconteceu. E apesar de hoje (sábado) ser o dia de repouso espiritual para os judeus, as bombas continuam caindo em gaza.

Para os ingênuos e os que estão em cima do muro, sugiro o texto de Norman Filkenstein.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Transmissão

por Vilauba Herrera


foto: Apu Gomes

Retirou as chaves do bolso de forma estapafúrdia, quase derrubou o buquê de rosas multicoloridas. Subia a escada em tempo recorde, para o seu tamanho e resistência física. Mas não arfava, tinha o olhar compenetrado nos degraus, cada lance. Imaginava o que ia falar, tinha dúvidas sobre como introduzir aquele assunto, tinha medo de gaguejar, pigarrear, babar. Ela sempre foi tão sensível.

As mãos estavam tremendo, no rosto, as primeiras gotas de suor escorriam pela testa grande. Faltavam dois lances de dez degraus. Parou por alguns segundos, passou a mão esquerda nos cabelos curtos e fez caretas para aliviar a tensão dos músculos da cara.

Chegou à porta, sutilmente, forço a maçaneta para ver se estava destrancada. Não estava. Rapidamente, colocou a chave e abriu vagarosamente. Otis Redding o recebeu: "There were time and you want to be free..."

Ele adorava I've Been Loving You Too Long, que rodava na vitrola no canto da sala. Seria a trilha. Colocou a bolsa em cima do sofá verde gasto. Logo depois, o buquê, camuflado entre duas almofadas coloridas.

Ela estava no quarto, a luz do abajour acesa. Olhou para o teto, não respirou fundo, não suspirou, apenas caminhou lentamente. Se estivesse dormindo faria o que? Não tinha pensado nessa situação.

- É você? Ela perguntou, em baixo volume. Nunca falava alto.
Não respondeu, já estava com um pé dentro do quarto. Lá estava ela, deitada, coberta somente por um lençol branco e extremamente fino. O livro em seu colo. Cabelos presos, a camisola que tinha lhe dado há alguns meses, em um dia qualquer, uma comemoração inventada.
Não deu tempo de abaixar a cabeça, levantá-la e dar um sorriso fraco.
- Não quero mais. Não consigo pensar mais em você aqui do meu lado.
Ela, sempre tão sensível, tão cheia de cuidados, o pegou de surpresa. Não esperava o golpe e por isso, sorriu. Não teve controle, foi instântaneo.

As mãos não saíram do bolso. Virou-se e saiu do quarto, ligeiro. Pegou sua bolsa, o buquê. Girou para observar a sala, iluminada pela lua e pela rua.
Deixou as chaves no sofá, abriu a porta e, antes de fechà-la, ouviu "I love you with all of my heart And I can't stop now..."

Na escada, enfiou a mão no bolso e atendeu o telefone. Suspirou, tranquilo.
- Alô... estou indo para ai.