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segunda-feira, 17 de março de 2008

Transmissão

por Vilauba Herrera


foto: Apu Gomes

Retirou as chaves do bolso de forma estapafúrdia, quase derrubou o buquê de rosas multicoloridas. Subia a escada em tempo recorde, para o seu tamanho e resistência física. Mas não arfava, tinha o olhar compenetrado nos degraus, cada lance. Imaginava o que ia falar, tinha dúvidas sobre como introduzir aquele assunto, tinha medo de gaguejar, pigarrear, babar. Ela sempre foi tão sensível.

As mãos estavam tremendo, no rosto, as primeiras gotas de suor escorriam pela testa grande. Faltavam dois lances de dez degraus. Parou por alguns segundos, passou a mão esquerda nos cabelos curtos e fez caretas para aliviar a tensão dos músculos da cara.

Chegou à porta, sutilmente, forço a maçaneta para ver se estava destrancada. Não estava. Rapidamente, colocou a chave e abriu vagarosamente. Otis Redding o recebeu: "There were time and you want to be free..."

Ele adorava I've Been Loving You Too Long, que rodava na vitrola no canto da sala. Seria a trilha. Colocou a bolsa em cima do sofá verde gasto. Logo depois, o buquê, camuflado entre duas almofadas coloridas.

Ela estava no quarto, a luz do abajour acesa. Olhou para o teto, não respirou fundo, não suspirou, apenas caminhou lentamente. Se estivesse dormindo faria o que? Não tinha pensado nessa situação.

- É você? Ela perguntou, em baixo volume. Nunca falava alto.
Não respondeu, já estava com um pé dentro do quarto. Lá estava ela, deitada, coberta somente por um lençol branco e extremamente fino. O livro em seu colo. Cabelos presos, a camisola que tinha lhe dado há alguns meses, em um dia qualquer, uma comemoração inventada.
Não deu tempo de abaixar a cabeça, levantá-la e dar um sorriso fraco.
- Não quero mais. Não consigo pensar mais em você aqui do meu lado.
Ela, sempre tão sensível, tão cheia de cuidados, o pegou de surpresa. Não esperava o golpe e por isso, sorriu. Não teve controle, foi instântaneo.

As mãos não saíram do bolso. Virou-se e saiu do quarto, ligeiro. Pegou sua bolsa, o buquê. Girou para observar a sala, iluminada pela lua e pela rua.
Deixou as chaves no sofá, abriu a porta e, antes de fechà-la, ouviu "I love you with all of my heart And I can't stop now..."

Na escada, enfiou a mão no bolso e atendeu o telefone. Suspirou, tranquilo.
- Alô... estou indo para ai.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Gun Street Girl

por Vilauba Herrera

Derrubou a agulha, que gemeu alto, antes de começar a cantar. - Nunca coloquei esse disco, sussurrou para si mesmo, enquanto ela procurava mais um cigarro na bolsa surrada, em cima do sofá. "Falling James in the Tahoe mud / Stick around to tell us all the tale...", a voz rouca começava a dominar o quarto pequeno e escuro.

O vestido era preto com detalhes verdes e vermelhos. Era isso que via, além do sorriso que lhe preenchia a alma. - Não acredito que você tem três discos iguais e nunca escutou, questionou com a voz fraca, soltando fumaça.

Cadenciada, a batida afastou o tédio daquele instante. Levantou rapidamente, e com o braço, esbarrou na revista velha, que caiu, aberta, no chão de tacos empoeirados. - Porra, sou um desastre, mesmo.

- Relaxa, já era. Essa música é estranha. - Mudou de assunto, sorriso de canto, boca fechada.
"He got all liquored up on that road house corn / Blew a hole in the hood of a yellow Corvette..."
Achou a lâmina, embaixo da vitrola. Estava lá há meses. Prometeu nunca mais usá-la. Arranhou a mesa, fez desenhos, fingindo saber cantar a melodia inédita.

"I said John, John, he's long gone / Gone to Indiana, ain't never coming home..."
- Não tenho me lembrado muito das coisas que fizemos juntos. Por que as pessoas guardam tantos restos? Gostamos das feridas, você não acha?
Escutou, mas com os olhos no vinil. Um pedaço de cigarro entre os dedos, cinzas em sua coxa nua.

- Vamos dormir?
- Amanhã preciso acordar daqui a pouco. - E riu.
Abraçaram-se, ele beijou o alto de sua cabeça, com cheiro de shampoo. Ela afagou suas costas. Suspiraram.
- Boa noite, disseram juntos.

Esperou ele deitar na cama sem lençol. Ainda esticou o olhar para ver a porta fechando. O dia começava. Enfiou as mãos pequenas nos bolsos curtos e caminhou, com a cabeça baixa.
"Banging on the table with an old tin cup / Sing I'll never kiss a Gun Street girl again..."