quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Do frio alemão ao sol indiano (e parada no deserto)


O despertador tocou umas 5h30 da manhã de terça, 8/1/2013. Havia deitado 2h30. Então enrolei mais um pouco com a desculpa que ainda nem tinha café da manhã, muito menos transporte para me levar ao aeroporto. Umas seis e pouco, levantei e rapidamente estava pronto, após uma ducha. Fui para o café da manhã e comi bem. Ainda tinha pão e queijo no meu quarto, que seria o alimento pré vôo. Peguei as mochilas, entreguei o cartão e sai do AO. Ainda não tinha amanhecido e já era quase 8h. Frio. 

Caminhei pelo Herzogstrasse até uma outra que não me lembro o nome, que me deixou ao lado da Friedrich Bahnof (acho que é isso). Uma mulher me ajudou a comprar o bilhete. Estava um pouco sonado ainda. Coloquei o fone de ouvido e logo o trem chegou. Moderno e silencioso, foi passando por toda a zona norte de Dusseldorf, as pessoas indo trabalhar. Estudar, turistas com suas malas imensas. Em pouco mais de 20 minutos, chegava ao aeroporto.

Entreguei a mala no check in, peguei os bilhetes e fui dar uma volta. Foi no meio do caminho que lembrei do pão com queijo esquecido em um bolso da mala despachada. “Fodeu, vão travar a mala. Alimento perecível aberto, queijo na India, sei lá”, pensei isso e mais algumas dúzias de bobagens.
Mas não tinha o que fazer. Também não tinha o que fazer no aeroporto, então fui para o portão. Após uma tremenda fila na revista de malas e roupas, ainda tive que enfrentar o papo chato de um funcionário que encrencou comigo. “O que você vai fazer na India? Por que está na Alemanha? Quanto tem em dinheiro?”

Comi uma mini pizza e comprei uma água para ler e esperar a chamada do vôo. Tentei achar um guia em inglês da India (É, eu estou sem guia). No avião, peguei um lugar no corredor, que para minhas pernas, é o menos pior. Mas vi que alguns outros grandões estavam sendo transferidos para locais melhores. Também quis e mudei. Fui sentar em um lugar que tinha muito espaço para as pernas e perto do banheiro. 

 Ao meu lado, um cara com jeito árabe, que passou a viagem toda escrevendo o que parecia ser um, manual, em um sistema que parecia o excel. Admito que tentei ler, mas era um papo bem técnico em inglês. Preferi acompanhar os programas que a Etihad oferecia na televisão de cada assento. Vi um pedaço do jogo entre Manchester City e Queens Park Rangers, que deu o título inglês ao City na temporada passada (Time patrocinado pela companhia aérea). Também vi o video dos 500 maiores gols da história, que achei a maior cascata, porque não tem nenhum gol do Romário, nem do Ronaldo, muito menos aquele do França, de bicicleta. Françoaldo era foda.

 E por fim, ainda treinei o italiano no filme Piazza Fontana, sobre as disputas políticas e ideológicas na Itália entre as décadas de 60 e 70.

Incontáveis horas depois, chegamos em Abu Dhabi, que de cima, parece um grande conglomerado de condomínios, desses dos coxinhas, cheios de luzes. Por sinal, acho condomínio fechado uma merda. Vi também o The Leaning, um prédio em forma de tocha, meio torto, que tinha visto no documentário da NatiGeo. Tudo muito cheio de opulência. Ah, também vi de cima, por alguns segundos, a partida entre Emirados Arabes e Bahrein, que depois acompanhei pela TV, no saguão do aeroporto.

Cerca de uma hora foi o tempo que aguardei no aeroporto de Abu Dhabi, que é dominado pela Etihad. Não vi um avião de outra companhia. E eram muito aviões. O aeroporto é grande.

Foram mais 3h de viagem até Mumbai, aproximadamente, num avião mais modesto, com um casal de israelenses meio folgados ao lado.
Passei pelo saguão dos passaportes, mostrei o meu e fui ao pátio pegar minha mala. Lembrava do pão com queijo quando a vi, deslizando na esteira. Tinha um bolso que parecia aberto. “É o bolso do pão. Eu sabia”.

Antes de pegá-la, um funcionário a agarrou e antes que eu pudesse dizer alguma coisa, a colocou no chão, junto com outras. Corri, abracei a mala e sai andando sem olhar para trás. Passei pela esteira do raio x e pronto. Pronto, na India.

Mas era madrugada e não tinha para onde ir. Fiquei no corredor de saída, perambulando. Vi que muita gente estava na mesma situação. Encostei na parede de vidro e fiquei ali, vendo as pessoas e o tempo passar. Depois de passar umas informações para os israelenses que vieram do meu lado na viagem, logo um veio conversar. Era Ahmad, um indiano falador e gente fina. Estava voltando de Moscou. Foi para lá passar um mês de férias. Mas não aguentou e em 10 dias, sendo nove dentro do aeroporto russo, voltou pra India. “Muito frio e muito caro. Uma água, seis dólares”, disse. Fiquei me perguntando porque ele não tinha pesquisado preços antes. Mas sei lá, eu ainda acho que nessa viagem vou me fazer essa pergunta, então não disse nada.

Estava esperando dar 8h para ir pegar um ônibus para Bangalore, sua cidade natal, que segundo ele, é bem mais legal que Mumbai. Contei que ia para Goa e ele não titubeou. “Já fui para lá. Você pode encontrar o que você quiser por lá. Entendeu? O que você quiser?” Entendi, disse, mas também respondi que não estava procurando essas coisas agora. Queria uma cervejinha apenas. “Sim, mas e você quiser, tem”.

Uma hora, Ahmad me pediu que olhasse as coisas dele, pois precisava fazer alguma coisa que não entendi bem. Dei um tempo eu levantei para esticar as costas e dar uma apurada ao redor. Ele estava em um canto, do outro lado do corredor, virado pra Meca, rezando.

Voltou e perguntou se tinham muitos ilslâmicos no Brasil. Disse que poucos. O cara do café e chá passou com o carrinho e ele me ofereceu um. Agradeci. Era um café com leite bem doce. Me indicou onde eu poderia pegar informações de quanto tempo e quanto gastar pra chegar ao terminal Lokmanyatilak, onde pegaria o trem para Goa. Também papeamos sobre nossas profissões, eu jornalista, ele dono de uma pequena joalheria, e falamos de cricket e futebol. Torcedor do Real Madrid, mas sabe jogar é cricket. Depois dormiu encostado no carrinho de malas. Enquanto eu tomava conta das coisas.

Ao acordar, o rapaz se espreguiçou e nos despedimos. Era hora de rumar para Bangalore. “O que vai fazer no restante de suas férias?”, perguntei. “Voltarei ao trabalho, acabaram as férias”, respondeu, sorrindo. Nos cumprimentamos com um abraço estilo indiano. Voltei ao meu posto e peguei as mochilas. Tinha que descolar o taxi para me levar ao terminal. Até as luzes do corredor de saída estava, se apagando, o dia amanhecendo, poucos turistas ainda perambulavam pelo lugar. Alguns esperavam o guichê de reservas de trem abrir. Decidi não esperar.

Umas voltas por Dusseldorf



Quando sai para dar uma volta em Dusseldorf, fiquei pensando que poderia me envolver em alguma boa roubada. Uma turma de malucos do leste me chamar para uma rave, ou uma turma alemã me convidar para um reggae, ou no hostel, um grupo de misturadas nações armar uma bagunça e eu estar no meio dela. Era isso que queria enquanto escutava música brasileiro no fone de ouvido e caminhava pela cidade, observando os prédios antigos misturados com os modernos, todos com seus desenhos simples e limpos, sobriamente alemão. 

Cheguei até a Rheinturm, uma torre de transmissão de TV de 168 metros de altura. Na sua base há um relógio digital estranho, que dizem ser o maior do mundo. É possível, entendo o relógio, saber a hora de quase qualquer ponto da cidade. Andei pela beira do rio Reno e fiquei me lembrando das aulas de história. O rio é um dos motores da Alemanha. Ali passam milhões em produtos e materias vendidos e comprados pela maior potência europeia. Vi muitas barcaças lotadas de carvão descendo e subindo o rio. Metralhei o rio e os barcos e a beira e as pessoas de fotos. Andei até o centro antigo de Dusseldorf, onde existe uma roda gigante que à noite se ilumina. Achei bonita a área central, repleta de gente, muitos turistas, pois era um domingo. Os restaurante lotados. A fome apertou e comi um falafel com chá gelado em uma banca com um grande narguilé na porta.

Já de noite, fui me perdendo até chegar ao hostel novamente, as mãos geladas. Enrolei no quarto, comi uma pizza no hall e fui dormir tarde.

No outro dia acordei meio tarde, o que não estava nos planos. Após o café da manhã, não sei porque, dormi de novo. Uma soneca curta, mas que me custou horas de luz do dia para fotografar. Fui para rua e logo cheguei à beira do rio. Dessa vez a atrevessei a ponte Rheinkniebrucke. Cheguei em parque em uma curva do Reno. Um lugar que parece ser usado pela população e também pelo rio, em momentos de cheia. Pessoas passeavam com seus cães. Atrás do parque, uma série de casarões antigos, alguns mais estreitos. Andei no meio daquele bairro, comprei pão e queijo e chocolate em um pequeno mercado, tentando dizer pelo menos oi, obrigado e tchau, em alemão.

Já escurecia e fiz as últimas imagens com a máquina fotográfica e a filmadora. Atravessei de volta pela Oberkasseler Brucke. De longe via a Rheinturm e seu imenso e estrenho relógio. Parei algumas minutos na frente do Tonhalle Dusseldorf, uma casa de espetáculos à beira do Reno, com uma grande abóbada. Pelo centro da cidade antiga, fui caminhando de volta para o hostel. Queria deixar tudo arrumado para acordar na madrugada e partir para o aeroporto. Nada de bagunça, dias sobriamente alemães.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A jornada começa na Alemanha


O dia tinha sido calmamente planejado. Mas como havia de ser, cheguei na rodoviária de Londres, em Victoria, a passos largos e olhos no relógio. Ainda comprei uma água e barras de cereais antes de ouvir do motorista, quando faltavam 10 minutos pro ônibus partir. “Precisa fazer o check in, com o bilhete da internet não funciona”. Boa. Corri pro check in e fui o último a me acomodar.

No plano, a ideia era chegar cedo e descolar o lugar menos apertado para 1m93. Mas as opções eram exíguas: ao lado de um velhinho fumante dizendo que estava doente, ainda duvido dele, ou de um jovem um pouco muito acima do peso. Preferi evitar a  gripe e fomos todos embora da ilha.

Entre tentativas de cochilos e brigas territoriais com o rapaz, olhava pela janela e tentava fazer algum tipo de balanço dos sensacionais seis meses que fiquei na Inglaterra. Melhor, dos nove meses que fiquei na Europa, contando os agradabilissimos três meses em Viareggio, na Itália. Mas acho melhor tomar vergonha na cara e escrever. O balanço fica pra depois.

Ganhamos a estrada e eu já estava há 30 segundos resmungando em pensamento do desconforto no ônibus quando me lembrei que vou para a India e que deveria colocar um sorriso na boca e até dividir o doritos com o gordinho que dormia com a cabeça tamborilando na janela.

Ao chegar no eurotunnel, a viagem ganhou contornos de ficção científica. Pelo menos pra mim. Logo após passar pela sempre agradável imigração, entramos num vagão imenso, que cabiam muitos ônibus e carros e caminhões. Algumas portas de vidro se fecharam, dividindo o vagão ainda mais por dentro.

 Em poucos minutos, o calor aumentou e a pressão também. Daquelas que tampam a orelha. Enquanto a turma teen da Belgica falava freneticamente, assim como o quarteto japonês, a família do meu vizinho gordinho, atrás de mim, roncava a plenos pulmões. Foi o único momento em que me esqueci que estava à mais de 100 metros abaixo do canal da Mancha para lembrar das minhas adoráveis noites como apreciador de roncos em Londres (pauta pra outros textos).

Enfim, na superfície francesa. Seguimos viagem. Mais acostumado ao espaço no banco e por incrível que pareça, achando que compreendia os japoneses, a turma belga com seu francês exageradamente belga e a família do meu vizinho, que admito não saber a origem, tentei dormir para não ter que puxar assunto.

Foi em Lille que minha memória lembra que paramos. Segundo o motorista, estavamos muito adiantados. Então tínhamos que estacionar por um tempo para não tumultuar as coisas em Bruxelas, destino do ônibus. Aproveitei para dar uma esticada e conhecer pelo menos um quarteirão da cidade do time que havia sido campeão francês há uma ou duas temporadas atrás e que tinha me dado algum trabalho também no video game. Pergunta pra alguém em Lille o que ele acha de Gervinho. Ou pergunta de Túlio de Mello pra eles. Só com moleton que estava, não consegui completar a volta no quarteirão. Voltei pro ônibus e logo ele partiu.

O ônibus chegou a Bruxelas no início da manhã do dia 6. Paramos em uma rua encoberta por altos prédios modernos, como esses de bancos, cheios de feiúra e vidros espelhados. Peguei as mochilas e caminhei até o guichê da companhia. Estava muito frio. Muito. O funcionário disse que o ônibus para Dusseldorf ainda não havia chegado. Resolvi averiguar a área em busca de um local fechado com aquecimento. Subi as escadarias no fim do escritório da Eurolines e cheguei em um saguão estilo shopping decadente. Um Starbucks estava aberto e era onde a turma dos ônibus se aquecia. Fui atrás de um banheiro. Tudo fechado. Alguns mendigos dormiam. Outros, até de cadeira elétrica de rodas, os furtavam e tentavam uns trocados com o pessoal que esperava transporte. Era um shopping e também uma estação rodoviária. Não reparei se tinham trens. Mas não tinham banheiros abertos mesmo.

Às 7h voltei pra rua e encontrei o ônibus. Esperei alguns minutos do lado de fora, pois o motorista não estava. Ele já estava um pouco cheio. Pela janela via algumas meninas bonitas e outras pessoas com a cara amarrada ou dormindo. Ao entrar no ônibus, fui pro fundão e sentei-me ao lado de uma senhora, que emburrada, tirou suas bolsas do banco. Agora tinha alguns centímetros a mais, podia descer o banco. Maravilha. Apaguei.

A primeira parada, já com o dia claro, não me lembro o nome da cidade. Mas lembro que acordei com a mulher ao meu lado se estapeando. Batia com força na cara, resmungava algumas coisas e girava o pescoço como ninguém. Muita elasticidade. E se batia e girava a cabeça. Eu olhava de rabo de olho. Parecia um ritual, mas era a forma de acordar e ganhar as ruas dessa cidade sem nome. Pediu licença. Pegou suas bolsas e saiu. Boa parte do ônibus também ficou nesse lugar. Fiquei com os dois bancos. Maravilha. Apaguei de novo. Dessa vez acordei em Maastricht, que ainda é Bélgica. Desci do ônibus para confirnar com o motorista. Voltei para meu posto e agora tentava compreender o que o trio do fundão, composto por duas mulheres e um jovem. Pareciam ciganos, mãe e filhos. A imigração subiu no meio de uma grande rua, não sei se era estrada. Sempre calorosa: “Onde você está indo? Vai para India a turismo ou para trabalhar? Tem certeza?”.

Passaportes averiguados, toca para Dusseldorf, motô!!!! Era o que poderia ter gritado ao motorista gente fina, mas deixei quieto e voltei aos meus sonhos no conforto do banco duplo.

Era um pouco mais de 11h da manhã quando entramos em Dusseldor, fui despertando, olhando para os prédios, reparando no bonde de linhas arredondadas que corre ao lado dos carros. Descemos ao lado da Hauptbanhof, que é a estação ferroviária. Encostei as malas na parede. Me alonguei e mandei um jóia pro motora. Amarrei a mochila cinza nas costas, a menor no peito e fui para a estação atrás de uma boa informação: o endereço do hostel, que não havia anotado previamente. Após um ligeiro ruído de comunicação, a funcionária educada me escreveu o nome da rua e o ônibus que deveria pegar. Saí da Hauptbanhof falando sozinho, aquela auto chamada na chincha pra acordar e perceber que está viajando sozinho. 

Fui interrompido por uma jovem que mancava e queria grana. Não precisei chegar na parte final da frase “I dont speak ger...”e já escutei um thank you muito mais pra fuck you. Comprei o bilhete em uma máquina na rua. Ao achar o ponto e entender como funciona o itinerário do transporte de Dusseldorf, pouco esperei para entrar no autobus. Em cinco minutos já descia e ai começava a meia hora de procura pelo hostel. Escolhi todas a opções erradas antes de entrar do lado certo da rua e achar o AO hostel. 

Com apenas 10 euros, fui atrás de um caixa para pagar o restante da reserva. Depois de perceber que não lembrava mais o número do cartão, contei com a paciência de minha mãe, que me lembrou. Salve a internet. Salve minha mãe.

Joguei as coisas no quarto. Tomei um banho, o restante de água da garrafa de Londres e fui desvendar Dusseldorf, primeira etapa do caminho das Indias, agora sob minha autoria.

sábado, 21 de maio de 2011

Marcha em São Paulo

Um, dois, três, quatro, cinco, urra! Imagine duas dezenas de policiais bradando o cântico e marcando ritmo batendo com seus cacetetes nos seus escudos. A patética cena policialesca ocorreu ontem à tarde na Avenida Paulista, quando policiais da tropa de choque atacou os participantes da Marcha da Maconha.

Mais uma vez houve uma tentativa em realizar a passeata que visa abrir o debate sobre a legalização, regulamentação da produção e consumo da erva. Mais uma vez, os homens da Justiça proibiram o movimento em uma canetada, às vésperas (dia 20). O responsável dessa vez foi o desembargador Teodomiro Mendez (como deve ser a cara desse senhor?), que usou o velho e reacionário discurso de que a Marcha é uma simples apologia ao uso de drogas.

O jeito foi transformar a Marcha da Maconha em manifestação pela Liberdade de expressão. E ela foi acordada entre a organização do evento e a PM. O Capitão Del Vecchio, foi esse o policial que fez um acordo com os responsáveis pela passeata. No dia 20, ele permitiu a manifestação. Mas Del Vecchio mudou de ideia. E mudou quando milhares de pessoas já estavam no vão livre do Masp. Já dizia Sabotage que "Gambé faz a acerto e depois mata na crocodilagem".

Dessa vez não houve morte. A polícia é truculenta, tosca, burra, mas não é louca de matar filhos da classe média paulistana - pelo menos não em massa -. Louco é o movimento que estava lá, incentivando os "homens da lei"a fazerem seu trabalho de manter a ordem e a paz - era isso que um gambézinho discursava, em meio a fumaça de gás de pimenta e reclamações de pedestres, que nada tinham a ver com a manifestação. Falava de paz com a mão no coldre.

O movimento que estava ali, indiscreta e calorosamente incentivando os atos bizarros da polícia é o Ultra Defesa - organização que defende as ações do Fascitóide Jair Bolsonaro, a caricatura de deputado que faz apologia à pena de morte, à tortura, ao ataque a homossexuais e mais uma série de bárbaries.

A instigação funcionou. Logo após a manifestação iniciar sua caminhada, a polícia usou suas armas da paz: bombas de gás de pimenta e tiros de bala de borracha. A tática rapidamente dispersou parte dos manifestantes. Pais com seus filhos pequenos tiveram que deixar a marcha. Sim, a tropa de choque jogou bombas em locais onde crianças passavam. Idosos também sofreram com o efeito moral da polícia: olhos vermelhos e gargantas irritadas.

Mas também não foi tão fácil assim restabelecer a ordem. Até às 17h20 (uma hora depois...) ainda haviam jovens sendo perseguidos por coxinhas motociclistas, que interrompiam o trânsito e ameaçavam prender meninas que gritavam contra a selvageria do corporação. Algemado mesmo foi o homem que vendia pulseiras de couro. Que apanhou e teve seus pertences roubados e destruídos por policiais - eu até diria os nomes e as patentes deles, mas já é praxe tirar a identificação do uniforme nesses momentos. Isso ocorreu na Consolação, um quarteirão depois da Praça Roosevelt.

Kassab e Alckmin devem estar satisfeitos. O comando da policia militar também. Os próprios gambés devem estar dando risada até agora. Dia tranquilo, né. Atirar contra desarmados, oprimir quem não tem sangue nos olhos para revidar é mais seguro.

Aproveitaram para desopilar o fígado com abusos, gritos e ameaças. Debater e falar alto com o capitão sobre o salário baixo e as condições de trabalho não dá. Falta coragem.

Tranquilos devem estar os empresários do transporte público. Aqueles que nunca aparecem (alguém ai sabe o nome ou tem uma foto de um dono de empresa de transporte coletivo?). Receberam bem o aumento para R$ 3 da passagem, mas "esqueceram" de repassar os lucros aos motoristas e cobradores. Um início de greve foi ameaçado essa semana. Se isso ocorrer, milhões de pessoas serão afetadas diariamente. Não poderão ir, nem vir.

Mas isso não importa. O que atrapalha mesmo a cidade são os maconheiros da Paulista.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pilantragem. Mas pode chamar de bondade.

Fulano possui sobrenome tradicional e uma fábrica tradicional de tecidos. Fulano é rico_ produz e vende toneladas de tecido por temporada. Cinco dessas toneladas são de sobras. Resto que, durante anos e anos ele jogou fora, poluindo o ambiente.
Após depositar milhares de quilos de pedaços de pano pelo mundo, Fulano soube da nova onda do momento: um mundo sustentável. Um planeta mais limpo para seus filhos e netos. Sim. Isso o animou. Mas o que o deixou mais contente foi a possibilidade de ganhar ainda mais dinheiro. Como?
Ajudar o planeta a ser menos sujo é legal, mas para Fulano, fazer isso gastando mais e ganhando menos não vale. Essa é a regra dele e e de todos os outros fulanos donos dos meios de produção.
Fulano gasta $ para pegar as sobras e formar novos quilometros de tecido, que, detalhe, possui qualidade inferior ao pano não reciclado. Porém, esse tecido "meia-boca" valerá 3x mais.

É vintage, é cool, é moderno, é up, é high, é sustentável...

É assim que o empresariado faz a sua parte.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Romance rápido (ou quase)

O metrô apontou na estação às 17h34, ele viu no celular. Um minuto antes, ela também apareceu ali e caminhou até perto dele. A estação quase vazia. Ela olhou para ele de frente, ele fez de lado, meio sem saber como. Entraram pela mesma porta. Primeiro, deixaram duas pessoas sair. Eram os únicos no vagão.
Sentou no banco ao lado da porta. Ela sentou em outro, à direita, em sua diagonal. Entreolharam-se pela primeira vez. Rápido. Ela pegou o celular e ele olhou pela janela, o reflexo do próprio rosto.
Nos primeiros metros de viagem, imaginou o que falaria e como. Tentaria ser o mais espontâneo possível. Só assim poderia acontecer. Mas era óbvio. Não é possível que ela não estava pensando a mesma coisa. Os dois ali, sozinhos num vagão no metrô mais movimentado do país. Uma chance em milhões. Seria simples: - Oi. Vamos aproveitar esses minúsculos minutos para uma paixão, uma mini paixão? Nos beijamos e quando o trem chegar na outra estação, eu volto para o meu lugar, as pessoas entram e nós nunca mais nos veremos. O que acha? - Era esse o texto.
Olharam-se novamente, ela com um sorriso pequeno. Ele com a cara de curioso. -Levanta e vai - pensou quase falando. Não foi.
O trem chegou. As portas abriram e ninguém entrou. Já eram flertes. Ela puxou uma revista, que, em poucos segundos, voltou para dentro da bolsa. Cruzou as pernas. Estava de saia jeans, blusa vermelha, fivelas (duas) na cabeça, segurando a franja para trás. Tinha olhos grandes, panturrilhas grossas e cabelos lisos, na altura dos ombros.
Ficava com a cabeça meio baixa. Os olhos movimentavam-se entre ela, o chão e o seu reflexo no vidro. Fitaram-se mais uma vez. Ela já estava mirando quando ele cruzou seu olhar. -Seria agora. Ou nunca. - raciocinou novamente. Levantou a cabeça e olhou-a fixamente. Dessa vez ela desviou. Voltou ao reflexo no vidro. O trem começou a frear.
Levantou-se e caminhou até a porta. Ela seguiria. Olhou-a e abriu um sorriso curto. Ela retribuiu. Abaixou a cabeça e desceu. Ao passar pela janela, olhou pra ela novamente, de lado, meio sem saber como. Sorriram.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Avenida Paulista, dia 20 de janeiro de 2011



Na avenida Paulista, espremidos entre agências bancárias e policiais militares, manifestantes realizaram ontem (20/1/2011), mais uma passeata contra o aumento da tarifa de ônibus na cidade de São Paulo. Entre 17h e 20h30, algumas centenas de pessoas mostraram indignação pelo reajuste feito pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM), que deu um belo presente de início de ano aos empresários do transporte "público". A passagem, que já custava bizarros R$ 2,70, foi para absurdos R$ 3.

Enquanto a passeata ainda se organizava, próxima à Praça dos Ciclistas, na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação, dois amigos, já beirando os 40 anos, conversavam.
- Até que tem bastante gente, né? Semana passada o prefeito e o governador encheram o pessoal de bala e bomba. Achei que não ia vir ninguém.
- Verdade. Também achei. Mas acho que vai ser grandinha. Bastante faixa, bandeira, placas...
- E por falar em bandeiras, não tem nenhuma do PT. Você viu alguma?
- Não, não vi.
Três segundos de silêncio.
- Endireitou, né?
- é, endireitou.


O barulho já tomava conta daquele pedaço do principal cartão postal da metrópole. Músicas criadas na hora para "homenagear" o prefeito e sua medida eram entoadas em alto e bom som. Melodias como o funk:"Dança Kassab, dança até o chão, aqui é o povo unido contra o aumento do busão...", ao estilo estádio de futebol: "Ei, Kassab, vai tomar busão, ei, Kassab, vai tomar busão", passando pela criação de torcidas argentinas: "Quem não pula, quer tarifa, quem não pula, quer tarifa", faziam a diversão dos manifestantes, que mantinham o bom humor, contrastando com a enfileirada e carrancuda polícia militar.
Foi então, que um jovem, parecendo ser da organização da passeata, resolveu render uma homenagem aos donos das empresas de ônibus, as únicas beneficiadas pelo reajuste feito pelo prefeito do DEM.
- Alguém ai sabe o nome de algum dono de empresa de ônibus? - perguntou para os companheiros ao lado.
Não sabiam. E ele partiu, contra o fluxo, perguntando aos demais parceiros de luta. Sem sucesso, saiu da manifestação e foi questionar uma jornalista, que estava no canteiro central, com o fotógrafo.
- Por favor, você pode me informar o nome de algum dono de empresa de ônibus?
- Eu não sei. - respondeu a repórter.
Coçando a orelha, o jovem atravessou a avenida olhando para o chão, entrou na passeata novamente. Logo um amigo chegou perto. - E ai, descobriu?
- Não. ninguém sabe. Acho que só mesmo o Kassab. - respondeu, enquanto já reassumia o megafone para iniciar mais um hit da tarde: "Puta que pariu, é a maior tarifa do Brasil.."