quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Palolem


Thank you, man. Have a nice trip, disse ao descer do trem para o cara que me falou que estávamos em Canacona. Ele acenou e o trem apitou a partiu. Apertei os olhos para enxergar a placa novamente. Estava lá, em Hindi também, Canacona. Com as mochilas no chão, olhei ao redor e vi que apenas duas ou três pessoas haviam descido no mesmo ponto que o meu. E elas já estavam longe. 

Sou completamente leigo em transporte ferroviário, já que esqueceram das ferrovias no Brasil, mas nunca tinha visto pátios de estações tão grandes como os que estava vendo na India. O trem era gigantesco. Comecei a caminhar em direção a estação e o trem, já em movimento, não acabava nunca. Sei lá quantos vagões.

Era mais de meia noite. Uma banquinha de comida e bebida estava aberta na estação. Três caras conversavam. Passei por eles e vi o guichê fechado. Tinha a saída, à direita, com uma escada, e uma sacada. Fui até lá para me localizar. Encontrei alguém dormindo num saco de dormir, num banco. Vi que era viajante. Logo escutei um “Hey, german?” Disse brasileiro. 

Era um jovem austríaco. Estava esperando o trem das 4h30 da manhã para ir embora. Tinha passado 12 dias ali, mais alguns em Bangalore. Logo chegou um indiano e perguntou se eu queria ir para algum lugar. Disse que tinha um lugar reservado em Palolem. Era apenas 3km dali. De rickshaw custava 18 rúpias até lá. Mas era meia noite e meia e o cara me ofereceu por 100 rúpias. Achei a diferença grande, mas o austriaco me lembro do horário e percebi que era a única alternativa, ou ir caminhando e perguntando pelo caminho.

 Falei que tudo bem e o cara me disse. “Mas eu não tenho ricshaw. Tenho uma bike.” Bicicleta, mano (em inglês)? Disse para ele olhar pra mim e para minha mochila maior. Ele disse, tudo bem, sem problema. O cara devia pesar metade de mim. O jovem europeu já lançou: “eles andam até em quatro em bikes, não tem problema uma mochila, ou duas.”Pensei uns segundos. Me despedi do austríaco e fomos embora.

O alívio foi quando descemos as escadas e vi que bike era uma moto. Subimos e em 10 minutos estava em uma das entradas de Palolem. Desci da moto e paguei o cara, que me deixou com outro moleque, que disse saber onde era o meu hut (cabana). Começamos a andar na praia, comércio aberto, música alta (eletrônica), os bares com suas luzes coloridas e europeus, aos montes.

Chegamos a um estabelecimento e fui apresentado a Samy, o gerente do lugar. Disse que tinha uma reserva, mas que havia chegado algumas horas antes. Citei o nome da pessoa com quem havia feito a reserva e ele fazia cara de dúvida. Me mostrou um hut e perguntei se era o meu daquela noite, ou o que tinha reservado para os próximos dias. Dai foi que ele admitiu. “Aqui são os huts do Samy.”

Agradeci e falei que tinha reservado outro e que procurar. Sai andando pela praia, após a tentativa de cambau. Caminhei mais algum tempo e depois de uma indicação e recusar mais algumas ofertas, cheguei ao The Nest. O bar ainda estava movimentado. Me apresentei e logo o gerente veio falar comigo. Confirmou minha reserva e me pediu para aguardar um instante. Momento em que troquei algumas palavras com uma coroa inglesa e bem bêbada, que disse frequentar o local há muitos anos, não entendi quantos.

Mohan, o gerente, me guiou até a cabana. A uns 20 metros da areia, uma casinha de madeira branca, com uma varanda e uma pequena janela. Peguei a chave, agradeci e empurrei as mochilas num cantinho. Estava perfeito.


Dentro, uma cama grande, com mosquiteiro e colchas coloridas. Uma mesinha e uma estante de pano pendurada. Um ventilador no teto de palha. Um banheiro que podia estar em melhores condições, mas funciona. Além da janela, a casinha tem uma centena de “saídas de ar”, principalmente no banheiro e na parte debaixo da parede do quarto, que não chega até o chão.

Tomei um banho e comi um sanduiche de tomate e queijo com uma cerveja. Dormi.
Eram quase 11h quando saí da cama. Precisava de uma internet para avisar que havia chegado. A net no The Nest funciona entre 10h e 22h. Mandei as mensagens e fui tomar um café da manhã...de frente para o mar. Chá, pão de forma com manteiga, ovos e um sucrilhos. E de frente, na cara do mar, com sol, coqueiros e calor.

Antes de voltar para a casinha, comprei protetor solar, repelente e um pano grande, desses de usar na praia. Foi meu primeiro treino de negociação de preço. Consegui um desconto e vi uma cena que ainda não sei se é corriqueira na India. Quem manda no negócio, pelo menos ali, é a mulher. O marido me levou até dentro da loja, pegou a criança no colo e quem assumiu as negociações foi a mãe. Me mostrou vários panos e chegamos a um acordo de valores até o aperto de mãos.

Caminhei até o outro lado da praia, que deve ter meio quilometro. Reparei nos barcos de pesca, coloridos, como no Brasil, com uma diferença, eles possuem um apoio, como se fosse um catamarã, feito por dois troncos levemente retorcidos e mais uma base de madeira. Na areia, o que impera entre turistas europeus e indianos é o frisbe. Entre os indianos, o cricket. Mas também encontrei as turmas praticando o bom e velho esporte bretão. Palolem, assimo como todos os lugares que passei pela India, é dominada por cães vira-latas e corvos, que diferente dos europeus, possuem uma parte acinzentada no dorso.


A praia de água bem calma e quente, tem um local em que só mulheres podem entrar. Só vi indianas utilizando a demarcação. Tirando crianças, não vi mulheres do país usando trajes de banho, mas muitas não usam as roupas características na areia. Goa, pela colonização portuguesa e mais ainda pela alta concentração de turistas europeus, possui um panorama diferente de outros locais da India. O catolicismo ainda é forte, vi algumas igrejas pelo caminho, e a rigidez em relação à vestimentas e o cotidiano feminino, por exemplo, parecem ser mais maleáveis. Mas, por enquanto, também não encontrei as “russas de top less”, como me disseram.

Goa já foi parada obrigatória para hippies. Ainda não vi eles por aqui. O que se mais se houve nas praias é a música eletrônica. Nos bares dos hotéis e na areia. Em uma caminhada observei dois grupos, de europeus, com caixas de som pulsando trance music sem parar. O que chamou a atenção é que o estilo musical, mais contemporâneo, não espanta turistas mais velhos. Pelo contrário. A impressão é a de quem vai a Goa não procura silêncio para relaxar. Festas ocorrem todos os dias em Palolem, ou nas praias vizinhas. Na caminhada que fiz para fotografar, recebi dois convites.


Vi um pôr do sol bonito no canto da praia e conversei com um local, que me ofereceu um passeio de barco pelo rio que desemboca na praia. “Lá você vai poder fotografar aves grandes e pequenas e macacos também, bem de perto”, me disse. Ele disse que o pai dele falava um pouco de português, mas que ele mesmo só sabia “obrigado” e o famoso portunhol “Como estás”. Também falamos de futebol_Pelé e Ronaldo, os que ele conhecia_e cricket. E eu não soube citar o nome de nenhum jogador da India, atual campeã mundial. Ele também queria saber se no Brasl havia dinossauros. Respondi que há milhões de anos, sim, mas que agora nao tínhamos animais tão grandes. Segundo ele (está difícil decorar os indianos), na India, nem no passado remoto houve dinossauros.


Jantei dois sanduiches de tomate com queijo com duas cervejas Kingfisher (acho que é o Martim Pescador), que adotei desde a minha chegada. Ela é produzida em Bangalore, mas, segundo o rótulo, só pode ser vendida em Goa. O fuso horário bateu e fui pra cama.

O trem (Mumbai - Canacona)


Não queria mais esperar. Eram 8h da manhã do dia 9/1/2013 e estava no aeroporto de Mumbai há quase quatro horas. Decidi ir para o terminal de Lokmanyatilak, mesmo sabendo que o trem para Goa só sairia 11h40. Fui ao prepaid taxi, que dizem ser a maneira mais segura de andar pela India. Disse para onde ia e o preço veio: 360 rúpias, quase 5 euros. Não pechinchei, talvez devesse. Ainda mais quando lembrei que paguei 314 rúpias para viajar 795km até Canacona de trem.

Comecei a andar até o taxi e já fui abordado por um cara que me conduziu até o carro. Lá se foram mais umas 10 rúpias de gorjeta por uma “ajuda”num trajeto de 100 metros. Entrei no honda pintado de amarelo e preto, que parecia novo perto dos outros modelos, mas já bem machucado e ornado com estofado chamativo. O motorista parecia não querer papo, mesmo assim, perguntei algumas coisas para acabar com o clima solene. Porém, logo calei para acompanhar um plano sequência de cerca de meia hora. Impactante.

Grandes construções sendo erguidas, favelas, mulheres com vestidos coloridos, homens apressados, outros nem tanto, canais cobertos de lixo, lixo jogado nas ruas, pessoas caminhando entre o lixo, cachorros e corvos disputando restos, homens lendo jornal em meio aos carros, trânsito caótico, ônibus velhos e vermelhos com mosaicos coloridos, motos, motonetas, rickshaws e bicicletas disputando espaço com caminhões e carros, ruas esburacadas e não sinalizadas, templos e prédios carcomidos pela umidade, edifícios modernos e feios, vacas nas calçadas. Estava passando por Mumbai, a maior cidade da India.

Desci há uns 100 metros do terminal. Mulheres e crianças enfiavam as mãos pelo vidro, pedindo dinheiro. Puxei umas moedas enquanto pagava mais uma gorjeta para o motorista. Sai do taxi, joguei a mochila nas costas e atravessei o mar de taxis e rickshaws. Estava assustado. Comecei a entrar na estação e me senti observado. Passei pela plataforma 1 e entrei no terminal. Um galpão imenso, de chão quadriculado preto e branco e poucos bancos e muito espaço. Mulheres limpavam o chão com pequenas vassouras de palha. Atravessei o local até o guichê de reservas. Este período é considerado de alta temporada de turistas na India, porque é calor e não é o momento das monções (chuvas), mas ali em Lokmanyatilac, até aquele momento, eu era o único turista não indiano.

Entrei na fila e todos me encaravam. Mentalmente, fingi estar habituado ao local para passar desapercebido. Não estava conseguindo, mas logo chegou minha vez e o funcionário me atendeu muito bem, indicando onde deveria pegar o trem.

Fui atrás de água e comida. A cafeteria, único lugar do terminal, estava fechada. Desci a escadaria e reparei ainda mais no local. A escada parecia ser de mármore vermelho, o teto era ondulado e no centro do galpão, uma grande escultura de tema religioso e cor marrom. Ao pé da escadaria, um banco com uma pessoa deitada. Era uma turista, tinha a bandeira do Canadá na mochila. Caminhei mais um pouco e quando retornei ao banco, a mulher havia sido acordada pela funcionária de limpeza, que a repreendeu por estar deitada no banco.

Puxei papo. Clara é de Quebec, trabalha na área de turismo na cidade e está viajando pela sexta vez pela India, sozinha. Tem 59 anos e, por coincidência, ia pegar o mesmo trem que eu. Ia para Kochi, no sul do país. No começo achei que estava enchendo o saco, mas aos poucos ela passou a conversar mais. Deve ser o jeitão canadense. Com o inglês carregado de sotaque francês, contou de algumas viagens, como descobriu a India, a espiritualidade que a fez conhecer e gostar do país e como se sente viajando sozinha. “Pra mim é tranquilo. Acho que por ser uma mulher mais velha, as pessoas me respeitam mais. Sei que existem problemas com mulheres mais jovens. Problemas como assédios, mas comigo nunca ocorreu grandes problemas. Me sinto segura.”

A cafeteria abriu e subimos para comer alguma coisa. Segui o conhecimento de Clara e de um senhor indiano, que me indicou o omelete. Pedi então o omelete (bem apimentado) e dois potatoes Wada, que é um bolinho redondo com curry e outras especiarias. Tudo com pão de forma na manteiga para quebrar o tempero. Comprei garrafas de água e um pacote de bolacha para a viagem.

Perguntei a Clara se conhecia Goa. Ela disse que não tinha interesse. “É um local onde não há o que procuro. Só tem praia e coqueiros e festas, mulheres nuas e muita droga. Não me interessa.”
Disse que além disso, existia a parte da colonização portuguesa, que parecia ser interessante, diante de toda a história e cultura da India. Não a convenceu.

10h30 nos dirigimos ao terminal 4 para pegar o trem. Ele já estava lá. E percebi que éramos os únicos turistas não indianos no local. Carroças cheias de sacas, caixas e caixotes eram empurradas por toda a plataforma, abastecendo o trem. Começamos a procurar nossos vagões. A cada vagão, uma lista organizada de assento, com os nomes dos passageiros. Muito bem organizado. Clara achou seu vagão, na classe AC3, e nos despedimos. “Valeu, Clara. Você salvou minha vida nesta manhã. Foi um prazer”, disse. Ela respondeu e cada um foi para um lado.

Na caminhada pela plataforma olhava para cada um dos vagões e tentava imaginar a idade daquela máquina. Achei meu vagão, S1 da classe Sleeper. Assento número 72. Era a última cama do vagão, em cima de outra, ao lado das portas e do banheiro. Joguei as mochilas em cima e, observado pelos que já estavam no trem, pulei na cama, meu quarto pelas próximas 13 horas.

Organizei as mochilas de uma forma que podia encostar e tentar um cochilo. Estava muito cansado, mas ainda impactado pelo ambiente. Observava as pessoas entrando no vagão todo azul, os vendedores de comidas, as famílias, o senhor na cama em frente a minha, perto da janela, lendo jornal, os três ventiladores no teto, bem próximos a mim. O trem apitou e começou a andar.

Foi aí que percebi. Realizava um sonho de criança. Sempre quis andar de trem por causa dos filmes de aventura, quando os heróis estavam em lugares ermos e pegavam os trens cheios de gente, bichos, maior bagunça, que nem Indiana Jones. Tirei o tênis, escrevi um pouco no caderninho e dormi, embalado pelo chacoalhar do trem e o bate papo dentro do vagão.

Acordei algumas vezes, mas não sai da cama. Só observava. Tomava poucos goles de água. Já sentia o cheiro do banheiro e queria evitá-lo. Uma hora, no entanto, como ainda não fazia ideia do tempo que ficaria lá dentro, desci em uma das paradas. Estávamos no meio do nada. Não havia estação. As pessoas estavam do lado de fora fumando, ou comprando ou vendendo. Do outro lado, o outro trilho era tomado por macacos, que esperavam as pessoas jogarem comida para se arriscar perto do trem. No meu vagão, só eu e um moleque, nos seus 8 anos, nos divertíamos com a cena.

E assim, a cada parada, pulava da cama para saber onde estava. O calor diminuíra, já que as portas dos vagões iam abertas, com o pessoal sentado na borda, olhando, fumando, conversando. Muitas horas e perguntas depois, um cara me passou uma informação mais confiável. “O trem vai passar em Canacona lá pelas 22h30, 23h, dependendo das paradas”, afirmou e eu acreditei. Por isso, relaxei e dormi, eram umas 18h30. Fui acordar pra lá das 21h. Minhas costas estavam doloridas, mas o cansaço e o fuso horário estavam vencendo. Usei o banheiro umas duas vezes. Estava realmente sujo e fedido, na linha estádio recomeço do segundo tempo.

O funcionário da companhia de trem passou e pediu as passagens. Pediu para ver o passaporte também, mas esqueceu de cobrar e ficou por isso mesmo. Em uma das paradas, um cara estava com um papel na mão e não sei porque, pedi para ver. Era o papel com todas as estações que o ônibus pararia. Faltavam quatro. Estava chegando. Cochilei de novo e acordei quando escutei uma turma de jovens falando alto, descendo em Madgaon (Margão), capital de Goa. Uma grande família entrou no vagão e dominou o restante das camas, já vagas por outros passageiros. Dos que partiram de Mumbai, só eu e o senhor do jornal no mesmo pedaço. Era uma estação antes da minha. Esperei já sentado e com tênis no pés.

Do frio alemão ao sol indiano (e parada no deserto)


O despertador tocou umas 5h30 da manhã de terça, 8/1/2013. Havia deitado 2h30. Então enrolei mais um pouco com a desculpa que ainda nem tinha café da manhã, muito menos transporte para me levar ao aeroporto. Umas seis e pouco, levantei e rapidamente estava pronto, após uma ducha. Fui para o café da manhã e comi bem. Ainda tinha pão e queijo no meu quarto, que seria o alimento pré vôo. Peguei as mochilas, entreguei o cartão e sai do AO. Ainda não tinha amanhecido e já era quase 8h. Frio. 

Caminhei pelo Herzogstrasse até uma outra que não me lembro o nome, que me deixou ao lado da Friedrich Bahnof (acho que é isso). Uma mulher me ajudou a comprar o bilhete. Estava um pouco sonado ainda. Coloquei o fone de ouvido e logo o trem chegou. Moderno e silencioso, foi passando por toda a zona norte de Dusseldorf, as pessoas indo trabalhar. Estudar, turistas com suas malas imensas. Em pouco mais de 20 minutos, chegava ao aeroporto.

Entreguei a mala no check in, peguei os bilhetes e fui dar uma volta. Foi no meio do caminho que lembrei do pão com queijo esquecido em um bolso da mala despachada. “Fodeu, vão travar a mala. Alimento perecível aberto, queijo na India, sei lá”, pensei isso e mais algumas dúzias de bobagens.
Mas não tinha o que fazer. Também não tinha o que fazer no aeroporto, então fui para o portão. Após uma tremenda fila na revista de malas e roupas, ainda tive que enfrentar o papo chato de um funcionário que encrencou comigo. “O que você vai fazer na India? Por que está na Alemanha? Quanto tem em dinheiro?”

Comi uma mini pizza e comprei uma água para ler e esperar a chamada do vôo. Tentei achar um guia em inglês da India (É, eu estou sem guia). No avião, peguei um lugar no corredor, que para minhas pernas, é o menos pior. Mas vi que alguns outros grandões estavam sendo transferidos para locais melhores. Também quis e mudei. Fui sentar em um lugar que tinha muito espaço para as pernas e perto do banheiro. 

 Ao meu lado, um cara com jeito árabe, que passou a viagem toda escrevendo o que parecia ser um, manual, em um sistema que parecia o excel. Admito que tentei ler, mas era um papo bem técnico em inglês. Preferi acompanhar os programas que a Etihad oferecia na televisão de cada assento. Vi um pedaço do jogo entre Manchester City e Queens Park Rangers, que deu o título inglês ao City na temporada passada (Time patrocinado pela companhia aérea). Também vi o video dos 500 maiores gols da história, que achei a maior cascata, porque não tem nenhum gol do Romário, nem do Ronaldo, muito menos aquele do França, de bicicleta. Françoaldo era foda.

 E por fim, ainda treinei o italiano no filme Piazza Fontana, sobre as disputas políticas e ideológicas na Itália entre as décadas de 60 e 70.

Incontáveis horas depois, chegamos em Abu Dhabi, que de cima, parece um grande conglomerado de condomínios, desses dos coxinhas, cheios de luzes. Por sinal, acho condomínio fechado uma merda. Vi também o The Leaning, um prédio em forma de tocha, meio torto, que tinha visto no documentário da NatiGeo. Tudo muito cheio de opulência. Ah, também vi de cima, por alguns segundos, a partida entre Emirados Arabes e Bahrein, que depois acompanhei pela TV, no saguão do aeroporto.

Cerca de uma hora foi o tempo que aguardei no aeroporto de Abu Dhabi, que é dominado pela Etihad. Não vi um avião de outra companhia. E eram muito aviões. O aeroporto é grande.

Foram mais 3h de viagem até Mumbai, aproximadamente, num avião mais modesto, com um casal de israelenses meio folgados ao lado.
Passei pelo saguão dos passaportes, mostrei o meu e fui ao pátio pegar minha mala. Lembrava do pão com queijo quando a vi, deslizando na esteira. Tinha um bolso que parecia aberto. “É o bolso do pão. Eu sabia”.

Antes de pegá-la, um funcionário a agarrou e antes que eu pudesse dizer alguma coisa, a colocou no chão, junto com outras. Corri, abracei a mala e sai andando sem olhar para trás. Passei pela esteira do raio x e pronto. Pronto, na India.

Mas era madrugada e não tinha para onde ir. Fiquei no corredor de saída, perambulando. Vi que muita gente estava na mesma situação. Encostei na parede de vidro e fiquei ali, vendo as pessoas e o tempo passar. Depois de passar umas informações para os israelenses que vieram do meu lado na viagem, logo um veio conversar. Era Ahmad, um indiano falador e gente fina. Estava voltando de Moscou. Foi para lá passar um mês de férias. Mas não aguentou e em 10 dias, sendo nove dentro do aeroporto russo, voltou pra India. “Muito frio e muito caro. Uma água, seis dólares”, disse. Fiquei me perguntando porque ele não tinha pesquisado preços antes. Mas sei lá, eu ainda acho que nessa viagem vou me fazer essa pergunta, então não disse nada.

Estava esperando dar 8h para ir pegar um ônibus para Bangalore, sua cidade natal, que segundo ele, é bem mais legal que Mumbai. Contei que ia para Goa e ele não titubeou. “Já fui para lá. Você pode encontrar o que você quiser por lá. Entendeu? O que você quiser?” Entendi, disse, mas também respondi que não estava procurando essas coisas agora. Queria uma cervejinha apenas. “Sim, mas e você quiser, tem”.

Uma hora, Ahmad me pediu que olhasse as coisas dele, pois precisava fazer alguma coisa que não entendi bem. Dei um tempo eu levantei para esticar as costas e dar uma apurada ao redor. Ele estava em um canto, do outro lado do corredor, virado pra Meca, rezando.

Voltou e perguntou se tinham muitos ilslâmicos no Brasil. Disse que poucos. O cara do café e chá passou com o carrinho e ele me ofereceu um. Agradeci. Era um café com leite bem doce. Me indicou onde eu poderia pegar informações de quanto tempo e quanto gastar pra chegar ao terminal Lokmanyatilak, onde pegaria o trem para Goa. Também papeamos sobre nossas profissões, eu jornalista, ele dono de uma pequena joalheria, e falamos de cricket e futebol. Torcedor do Real Madrid, mas sabe jogar é cricket. Depois dormiu encostado no carrinho de malas. Enquanto eu tomava conta das coisas.

Ao acordar, o rapaz se espreguiçou e nos despedimos. Era hora de rumar para Bangalore. “O que vai fazer no restante de suas férias?”, perguntei. “Voltarei ao trabalho, acabaram as férias”, respondeu, sorrindo. Nos cumprimentamos com um abraço estilo indiano. Voltei ao meu posto e peguei as mochilas. Tinha que descolar o taxi para me levar ao terminal. Até as luzes do corredor de saída estava, se apagando, o dia amanhecendo, poucos turistas ainda perambulavam pelo lugar. Alguns esperavam o guichê de reservas de trem abrir. Decidi não esperar.

Umas voltas por Dusseldorf



Quando sai para dar uma volta em Dusseldorf, fiquei pensando que poderia me envolver em alguma boa roubada. Uma turma de malucos do leste me chamar para uma rave, ou uma turma alemã me convidar para um reggae, ou no hostel, um grupo de misturadas nações armar uma bagunça e eu estar no meio dela. Era isso que queria enquanto escutava música brasileiro no fone de ouvido e caminhava pela cidade, observando os prédios antigos misturados com os modernos, todos com seus desenhos simples e limpos, sobriamente alemão. 

Cheguei até a Rheinturm, uma torre de transmissão de TV de 168 metros de altura. Na sua base há um relógio digital estranho, que dizem ser o maior do mundo. É possível, entendo o relógio, saber a hora de quase qualquer ponto da cidade. Andei pela beira do rio Reno e fiquei me lembrando das aulas de história. O rio é um dos motores da Alemanha. Ali passam milhões em produtos e materias vendidos e comprados pela maior potência europeia. Vi muitas barcaças lotadas de carvão descendo e subindo o rio. Metralhei o rio e os barcos e a beira e as pessoas de fotos. Andei até o centro antigo de Dusseldorf, onde existe uma roda gigante que à noite se ilumina. Achei bonita a área central, repleta de gente, muitos turistas, pois era um domingo. Os restaurante lotados. A fome apertou e comi um falafel com chá gelado em uma banca com um grande narguilé na porta.

Já de noite, fui me perdendo até chegar ao hostel novamente, as mãos geladas. Enrolei no quarto, comi uma pizza no hall e fui dormir tarde.

No outro dia acordei meio tarde, o que não estava nos planos. Após o café da manhã, não sei porque, dormi de novo. Uma soneca curta, mas que me custou horas de luz do dia para fotografar. Fui para rua e logo cheguei à beira do rio. Dessa vez a atrevessei a ponte Rheinkniebrucke. Cheguei em parque em uma curva do Reno. Um lugar que parece ser usado pela população e também pelo rio, em momentos de cheia. Pessoas passeavam com seus cães. Atrás do parque, uma série de casarões antigos, alguns mais estreitos. Andei no meio daquele bairro, comprei pão e queijo e chocolate em um pequeno mercado, tentando dizer pelo menos oi, obrigado e tchau, em alemão.

Já escurecia e fiz as últimas imagens com a máquina fotográfica e a filmadora. Atravessei de volta pela Oberkasseler Brucke. De longe via a Rheinturm e seu imenso e estrenho relógio. Parei algumas minutos na frente do Tonhalle Dusseldorf, uma casa de espetáculos à beira do Reno, com uma grande abóbada. Pelo centro da cidade antiga, fui caminhando de volta para o hostel. Queria deixar tudo arrumado para acordar na madrugada e partir para o aeroporto. Nada de bagunça, dias sobriamente alemães.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A jornada começa na Alemanha


O dia tinha sido calmamente planejado. Mas como havia de ser, cheguei na rodoviária de Londres, em Victoria, a passos largos e olhos no relógio. Ainda comprei uma água e barras de cereais antes de ouvir do motorista, quando faltavam 10 minutos pro ônibus partir. “Precisa fazer o check in, com o bilhete da internet não funciona”. Boa. Corri pro check in e fui o último a me acomodar.

No plano, a ideia era chegar cedo e descolar o lugar menos apertado para 1m93. Mas as opções eram exíguas: ao lado de um velhinho fumante dizendo que estava doente, ainda duvido dele, ou de um jovem um pouco muito acima do peso. Preferi evitar a  gripe e fomos todos embora da ilha.

Entre tentativas de cochilos e brigas territoriais com o rapaz, olhava pela janela e tentava fazer algum tipo de balanço dos sensacionais seis meses que fiquei na Inglaterra. Melhor, dos nove meses que fiquei na Europa, contando os agradabilissimos três meses em Viareggio, na Itália. Mas acho melhor tomar vergonha na cara e escrever. O balanço fica pra depois.

Ganhamos a estrada e eu já estava há 30 segundos resmungando em pensamento do desconforto no ônibus quando me lembrei que vou para a India e que deveria colocar um sorriso na boca e até dividir o doritos com o gordinho que dormia com a cabeça tamborilando na janela.

Ao chegar no eurotunnel, a viagem ganhou contornos de ficção científica. Pelo menos pra mim. Logo após passar pela sempre agradável imigração, entramos num vagão imenso, que cabiam muitos ônibus e carros e caminhões. Algumas portas de vidro se fecharam, dividindo o vagão ainda mais por dentro.

 Em poucos minutos, o calor aumentou e a pressão também. Daquelas que tampam a orelha. Enquanto a turma teen da Belgica falava freneticamente, assim como o quarteto japonês, a família do meu vizinho gordinho, atrás de mim, roncava a plenos pulmões. Foi o único momento em que me esqueci que estava à mais de 100 metros abaixo do canal da Mancha para lembrar das minhas adoráveis noites como apreciador de roncos em Londres (pauta pra outros textos).

Enfim, na superfície francesa. Seguimos viagem. Mais acostumado ao espaço no banco e por incrível que pareça, achando que compreendia os japoneses, a turma belga com seu francês exageradamente belga e a família do meu vizinho, que admito não saber a origem, tentei dormir para não ter que puxar assunto.

Foi em Lille que minha memória lembra que paramos. Segundo o motorista, estavamos muito adiantados. Então tínhamos que estacionar por um tempo para não tumultuar as coisas em Bruxelas, destino do ônibus. Aproveitei para dar uma esticada e conhecer pelo menos um quarteirão da cidade do time que havia sido campeão francês há uma ou duas temporadas atrás e que tinha me dado algum trabalho também no video game. Pergunta pra alguém em Lille o que ele acha de Gervinho. Ou pergunta de Túlio de Mello pra eles. Só com moleton que estava, não consegui completar a volta no quarteirão. Voltei pro ônibus e logo ele partiu.

O ônibus chegou a Bruxelas no início da manhã do dia 6. Paramos em uma rua encoberta por altos prédios modernos, como esses de bancos, cheios de feiúra e vidros espelhados. Peguei as mochilas e caminhei até o guichê da companhia. Estava muito frio. Muito. O funcionário disse que o ônibus para Dusseldorf ainda não havia chegado. Resolvi averiguar a área em busca de um local fechado com aquecimento. Subi as escadarias no fim do escritório da Eurolines e cheguei em um saguão estilo shopping decadente. Um Starbucks estava aberto e era onde a turma dos ônibus se aquecia. Fui atrás de um banheiro. Tudo fechado. Alguns mendigos dormiam. Outros, até de cadeira elétrica de rodas, os furtavam e tentavam uns trocados com o pessoal que esperava transporte. Era um shopping e também uma estação rodoviária. Não reparei se tinham trens. Mas não tinham banheiros abertos mesmo.

Às 7h voltei pra rua e encontrei o ônibus. Esperei alguns minutos do lado de fora, pois o motorista não estava. Ele já estava um pouco cheio. Pela janela via algumas meninas bonitas e outras pessoas com a cara amarrada ou dormindo. Ao entrar no ônibus, fui pro fundão e sentei-me ao lado de uma senhora, que emburrada, tirou suas bolsas do banco. Agora tinha alguns centímetros a mais, podia descer o banco. Maravilha. Apaguei.

A primeira parada, já com o dia claro, não me lembro o nome da cidade. Mas lembro que acordei com a mulher ao meu lado se estapeando. Batia com força na cara, resmungava algumas coisas e girava o pescoço como ninguém. Muita elasticidade. E se batia e girava a cabeça. Eu olhava de rabo de olho. Parecia um ritual, mas era a forma de acordar e ganhar as ruas dessa cidade sem nome. Pediu licença. Pegou suas bolsas e saiu. Boa parte do ônibus também ficou nesse lugar. Fiquei com os dois bancos. Maravilha. Apaguei de novo. Dessa vez acordei em Maastricht, que ainda é Bélgica. Desci do ônibus para confirnar com o motorista. Voltei para meu posto e agora tentava compreender o que o trio do fundão, composto por duas mulheres e um jovem. Pareciam ciganos, mãe e filhos. A imigração subiu no meio de uma grande rua, não sei se era estrada. Sempre calorosa: “Onde você está indo? Vai para India a turismo ou para trabalhar? Tem certeza?”.

Passaportes averiguados, toca para Dusseldorf, motô!!!! Era o que poderia ter gritado ao motorista gente fina, mas deixei quieto e voltei aos meus sonhos no conforto do banco duplo.

Era um pouco mais de 11h da manhã quando entramos em Dusseldor, fui despertando, olhando para os prédios, reparando no bonde de linhas arredondadas que corre ao lado dos carros. Descemos ao lado da Hauptbanhof, que é a estação ferroviária. Encostei as malas na parede. Me alonguei e mandei um jóia pro motora. Amarrei a mochila cinza nas costas, a menor no peito e fui para a estação atrás de uma boa informação: o endereço do hostel, que não havia anotado previamente. Após um ligeiro ruído de comunicação, a funcionária educada me escreveu o nome da rua e o ônibus que deveria pegar. Saí da Hauptbanhof falando sozinho, aquela auto chamada na chincha pra acordar e perceber que está viajando sozinho. 

Fui interrompido por uma jovem que mancava e queria grana. Não precisei chegar na parte final da frase “I dont speak ger...”e já escutei um thank you muito mais pra fuck you. Comprei o bilhete em uma máquina na rua. Ao achar o ponto e entender como funciona o itinerário do transporte de Dusseldorf, pouco esperei para entrar no autobus. Em cinco minutos já descia e ai começava a meia hora de procura pelo hostel. Escolhi todas a opções erradas antes de entrar do lado certo da rua e achar o AO hostel. 

Com apenas 10 euros, fui atrás de um caixa para pagar o restante da reserva. Depois de perceber que não lembrava mais o número do cartão, contei com a paciência de minha mãe, que me lembrou. Salve a internet. Salve minha mãe.

Joguei as coisas no quarto. Tomei um banho, o restante de água da garrafa de Londres e fui desvendar Dusseldorf, primeira etapa do caminho das Indias, agora sob minha autoria.

sábado, 21 de maio de 2011

Marcha em São Paulo

Um, dois, três, quatro, cinco, urra! Imagine duas dezenas de policiais bradando o cântico e marcando ritmo batendo com seus cacetetes nos seus escudos. A patética cena policialesca ocorreu ontem à tarde na Avenida Paulista, quando policiais da tropa de choque atacou os participantes da Marcha da Maconha.

Mais uma vez houve uma tentativa em realizar a passeata que visa abrir o debate sobre a legalização, regulamentação da produção e consumo da erva. Mais uma vez, os homens da Justiça proibiram o movimento em uma canetada, às vésperas (dia 20). O responsável dessa vez foi o desembargador Teodomiro Mendez (como deve ser a cara desse senhor?), que usou o velho e reacionário discurso de que a Marcha é uma simples apologia ao uso de drogas.

O jeito foi transformar a Marcha da Maconha em manifestação pela Liberdade de expressão. E ela foi acordada entre a organização do evento e a PM. O Capitão Del Vecchio, foi esse o policial que fez um acordo com os responsáveis pela passeata. No dia 20, ele permitiu a manifestação. Mas Del Vecchio mudou de ideia. E mudou quando milhares de pessoas já estavam no vão livre do Masp. Já dizia Sabotage que "Gambé faz a acerto e depois mata na crocodilagem".

Dessa vez não houve morte. A polícia é truculenta, tosca, burra, mas não é louca de matar filhos da classe média paulistana - pelo menos não em massa -. Louco é o movimento que estava lá, incentivando os "homens da lei"a fazerem seu trabalho de manter a ordem e a paz - era isso que um gambézinho discursava, em meio a fumaça de gás de pimenta e reclamações de pedestres, que nada tinham a ver com a manifestação. Falava de paz com a mão no coldre.

O movimento que estava ali, indiscreta e calorosamente incentivando os atos bizarros da polícia é o Ultra Defesa - organização que defende as ações do Fascitóide Jair Bolsonaro, a caricatura de deputado que faz apologia à pena de morte, à tortura, ao ataque a homossexuais e mais uma série de bárbaries.

A instigação funcionou. Logo após a manifestação iniciar sua caminhada, a polícia usou suas armas da paz: bombas de gás de pimenta e tiros de bala de borracha. A tática rapidamente dispersou parte dos manifestantes. Pais com seus filhos pequenos tiveram que deixar a marcha. Sim, a tropa de choque jogou bombas em locais onde crianças passavam. Idosos também sofreram com o efeito moral da polícia: olhos vermelhos e gargantas irritadas.

Mas também não foi tão fácil assim restabelecer a ordem. Até às 17h20 (uma hora depois...) ainda haviam jovens sendo perseguidos por coxinhas motociclistas, que interrompiam o trânsito e ameaçavam prender meninas que gritavam contra a selvageria do corporação. Algemado mesmo foi o homem que vendia pulseiras de couro. Que apanhou e teve seus pertences roubados e destruídos por policiais - eu até diria os nomes e as patentes deles, mas já é praxe tirar a identificação do uniforme nesses momentos. Isso ocorreu na Consolação, um quarteirão depois da Praça Roosevelt.

Kassab e Alckmin devem estar satisfeitos. O comando da policia militar também. Os próprios gambés devem estar dando risada até agora. Dia tranquilo, né. Atirar contra desarmados, oprimir quem não tem sangue nos olhos para revidar é mais seguro.

Aproveitaram para desopilar o fígado com abusos, gritos e ameaças. Debater e falar alto com o capitão sobre o salário baixo e as condições de trabalho não dá. Falta coragem.

Tranquilos devem estar os empresários do transporte público. Aqueles que nunca aparecem (alguém ai sabe o nome ou tem uma foto de um dono de empresa de transporte coletivo?). Receberam bem o aumento para R$ 3 da passagem, mas "esqueceram" de repassar os lucros aos motoristas e cobradores. Um início de greve foi ameaçado essa semana. Se isso ocorrer, milhões de pessoas serão afetadas diariamente. Não poderão ir, nem vir.

Mas isso não importa. O que atrapalha mesmo a cidade são os maconheiros da Paulista.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pilantragem. Mas pode chamar de bondade.

Fulano possui sobrenome tradicional e uma fábrica tradicional de tecidos. Fulano é rico_ produz e vende toneladas de tecido por temporada. Cinco dessas toneladas são de sobras. Resto que, durante anos e anos ele jogou fora, poluindo o ambiente.
Após depositar milhares de quilos de pedaços de pano pelo mundo, Fulano soube da nova onda do momento: um mundo sustentável. Um planeta mais limpo para seus filhos e netos. Sim. Isso o animou. Mas o que o deixou mais contente foi a possibilidade de ganhar ainda mais dinheiro. Como?
Ajudar o planeta a ser menos sujo é legal, mas para Fulano, fazer isso gastando mais e ganhando menos não vale. Essa é a regra dele e e de todos os outros fulanos donos dos meios de produção.
Fulano gasta $ para pegar as sobras e formar novos quilometros de tecido, que, detalhe, possui qualidade inferior ao pano não reciclado. Porém, esse tecido "meia-boca" valerá 3x mais.

É vintage, é cool, é moderno, é up, é high, é sustentável...

É assim que o empresariado faz a sua parte.