segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Tarde no templo

Último dia em Bodhgaya. Fui para o Mahabodhi temple e fiquei lá por umas horas, no meio da tarde. Caminhei pelo jardim, tirei as meias encardidas e vi os budistas orando em pleno domingo. O templo cheio. Em pé, sentados ou andando pelo jardim, entoavam mantras, com os malas, aqueles cordões de com 108 sementes, ou com o Prayer Wheel,  que giram enquanto... "Om Mani Padme Hum".

Sentei de pernas cruzadas em um dos lados do jardim, em um lugar cimentado. Em tentativa de imitar os monges ali por perto. Logo apareceu um grupo, de umas 50, 60 pessoas, todas de branco. Sentaram-se ao meu redor. Budistas do Sri Lanka. Uma mulher perguntou minha origem. - Brasil, respondi. Ela emendou: "Então você fala alemão?"

A tarde caiu e o grupo repetia os mantras declamados por um líder, de microfone na mão e igualmente sentado. Um som meio calmante, que ornava com a vista do templo, iluminado pelos raios laranjas do sol, repleto de periquitos, pombas e outras aves nas suas dobras, cantos e beiradas. Alguns esquilos de cauda listrada, o bicho mas rápido que já vi, também se aventuravam nas alturas. Dois cachorros encostaram do meu lado.

Os monges ganharam alguns trocados, distribuídos por outro monge e uma mulher, com maços de notas de 10 rúpias nas mãos. Os monges distribuíram sacos com alimentos para famílias e quatro meninas esticavam a mão e pediam frutas à uma mulher que devia ser monge também.  Asiática, com o cabelo raspado. Paciente, ofereceu as frutas e ainda recolheu as cascas e restos já que o quarteto comia ali mesmo. A monge pediu silêncio e as meninas foram embora sem agradecer.

Na India, quando o papo é com os turistas laranja é orange. mexirica também. Alguns monges, sentados de pernas cruzadas, parecem estar em transe, enquanto balançam levemente seus corpos para os lados. Mesmo quando há uma turma conversando por perto, ou cachorros latindo e fazendo arruaça.
Qual a sensação? Barato bom?

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Bodhgaya



A placa diz que foi em Bodhgaya, no século 6 AC, que Sidarta Gautama tornou-se Buda. A cidade é considerada o principal ponto de peregrinação budista do mundo.

É assim que a pequena cidade vive hoje, do turismo religioso. Monasterios budistas de vários países estão sediados na região, ao sul do estado de Bihar. O principal e maior templo em sua homenagem, o Mahabodhi, construído no século 6 e passou por uma série de reformas ao longo da história. Até os ingleses meteram a mão ali.


Contornando o Mahabodhi, um caminho de mármore branco, onde as pessoas dão voltas enquanto oram. O chão é mantido limpo. Enquanto estive lá, as pessoas não deixavam nem uma folha seca no piso. Pegavam, como se fosse um presente. Acho que talvez seja.

Ao redor do templo, um grande jardim, repleto de pequenos templos e grandes árvores. Nos espaços entre eles, mesas de madeira próximas ao solo, apoiadas por alguns tijolos. Nelas, budistas praticavam um tipo de oração misturada com exercício. Uma espécie de flexão de braços. Todas as mesas, quando deixam de ser usadas, são cobertas por uma lona, com cuidado. E cachorros, muitos. Um deles, filhote, se aninhou em minhas pernas enquanto observava, sentado, o Mahabodhi. Em alguns pontos do jardim, placas indicam locais onde Buda realizou períodos de meditação.


Por dentro, a construção é simples. Um altar com um escultura de Buda, com os cabelos azuis, os olhos brilhantes e semi cerrados e uma roupa laranja, também brilhosa. Alguns sentados no chão, rezando. A maioria passa rápido, com uma pequena prece, alguns sinais e oferendas exibidas, mas colocadas do lado de fora.

Embaixo de uma árvore, atrás do templo, diante do local onde teria ocorrido a iluminação, um velho monge conversa, microfone na mão, com um grupo. Todos sentados no chão. O papo parece ser bom, pois risadas não faltam.
Pelas ruas, monges e budistas e parentes de monges, em visita, se misturam à população, a maioria com feições indianas e nepalesas (tibetanas...).

 Mas o turismo interno é ainda maior. Ônibus não param de chegar e buscar vagas nos cantos e terrenos enlameados da cidade. O comércio é aquecido. Dezenas de barracas estão enfileiradas pela rua principal: artigos religisos, estátuas, esculturas, roupas, bolsas, cobertores, panos, almofadas para meditação, objetos para a casa, pequenos eltrodomésticos, comida, brinquedos, bijuterias, facas e até uma banca de mágicas.


No murado parque Jay Prakash, um jardim que possui mais cara de India e menos Inglaterra. Algumas roseiras estão ali, cercadas, mas a maior parte do terreno é composta por grandes e médias árvores, com bancos onde casais estão menos tímidos e mais protegidos do público e das regras. Cachorros se espreguiçam ao sol e esquilos ameaçam chegar perto e depois somem em alta velocidade.


No monasterio tibetano, moleques desatentos tinham aula com um monge. Em se incomodar, ele continuava as orações, com o auxilio de um dos meninos, que batia no tambor, vez ou outra. Eu atrapalhava mais um pouco, com os clicks da máquina. Muitas cores e desenhos sobre a história de Buda, antes e depois da iluminação. Uma estátua dourada e adornos de flor nos pilares e nas paredes. Quando sai, dois meninos andavam de bicicleta, enquanto um cachorro com a cara pintada me pedia carinho e o seu amigo, filhotão, mordia minha canela.





Em um outro templo, um grupo ganhava o almoço. Adultos, idosos e crianças sentadas no chão. Eles comem em uma espécie de folha de árvore grande e um pouco seca. A comida é farta. Qualquer um pode chegar e comer. 

Uma bagunça se forma na minha frente quando começo a fotografar umas crianças. Todas aparecem e querem aparecer ainda mais. Pulam na frente da máquina e comemoram quando se veem na tela. Também fotografo um senhor, que anota seu endereço para que eu mande as fotos. Pede meu e-mail para quando puder sentar na frente do computador, me escrever. Jovens se aproximam para tentar levar uma grana como guias. Ele os afasta e conversamos até que a fome bate e encosto num restaurante no subsolo de um prédio. Dal de espinafre, omelete e arroz. Um suco engarrafado de manga pela Coca Cola, Maaza. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Chegada a Bodhgaya


Para chegar a Bodhgaya, resolvi usar avião, já que só teria trem em Kajuraho no dia 8 à noite. Comprei uma passagem para Varanasi e de lá, um trem para Gaya e Bodhgaya, um rickshaw depois.  Sai do hotel em Kajuraho e decidi caminhar até o aeroporto, a quatro quilômetros dali. Após uma indicação errada de um menino numa bicicleta, cheguei na frente de um grande hotel onde dois motoristas de bike rickshaw aguardavam clientes. 

A dupla logo veio falar comigo. Perguntei o preço até o aeroporto, já que faltava menos de uma hora para o check in. Foi o começo da briga. Barganhei e acertei um valor, mas os dois já discutiam quem iria me levar, num arranca-rabo nervoso. Cada um puxou sua bicicleta para perto de mim e gritavam. Mandei os dois à merda e decidi ir andando. O mais jovem ainda me seguiu por um bom tempo, pedindo, de quando em quando, para eu subir no rickshaw. Depois desistiu.

Quando cheguei no terminal entendi porque aquela pequena cidade já tinha um aeroporto (e constrói um novo terminal)Um grupo grande de senhores e senhoras, entre italianos (euros), norte-americanos (dólares), israelenses (dólares, euros e muito mais...), entre outros, aguardava na fila para a revista.
Esqueci de guardar meu canivete, que logo virou souvenir para o guarda bigodudo que fingiu estar tenso por revistar minha mala, após o raio X apitar. Fechou a cara e guardou o presente na sua gaveta.


Kajuraho é mais bonita do céu. O vilarejo logo some entre as plantações verdes, os terrenos secos, os pequenos canais de irrigação, as colinas amareladas e cheias de pedras. Cochilei e babei na camiseta, enquanto lia sobre as livrarias de San Francisco. O avião pousou no aeroporto longínquo e moderno (mais de 20km) de Varanasi. Branco, brilhoso e envidraçado como quase todos os novos aeroportos que já vi. Um grande quadro de buda de um lado, uma pintura das margens da Ganga do outro. Sol e poeira do lado de fora. Decidi esperar mais um pouco, antes de seguir para a estação, já que o trem partiria apenas 21h. Ainda eram 15h.

Sai do aeroporto e em meia hora estava na Varanasi Junction. Logo de cara, não fui muito coma cidade. Ainda foi só flerte, mas com o pé atrás para o retorno. Ainda levei uma escarrada na mochila, que o filho da puta deve ter perdido meio litro. Filho da puta. A estação é feia. Parece uma prisão, escura, cheia de grades. O hall é pequeno e as pessoas, centenas delas, se acomodam no chão, aguardando as informações no letreiro. 

Ainda tinha mais de uma hora até o trem. Fui a um restaurante e mais uma vez vi que o comerciante indiano fica puto e não esconde isso quando você consome coisas baratas.  Pedi um mix de vegetais e um arroz simples. O arroz veio gelado. O preço era pouco, comi, paguei e fui embora. Aguardei na plataforma até o trem parar, com cerca de uma hora e meia de atraso. Era melhor, assim chegava mais tarde em Gaya e ficaria menos tempo na estação até conseguir um rickshaw para Bodhgaya.

A viagem foi tranquila e quando o trem se aproximava, vi que o cara no banco da frente era gringo. Puxei papo e ele ia para Bodhgaya também. Um coroa com nome mais norte-americano possível, Doug. Ele trabalha há mais de 20 anos entre India e EUA, em um instituto. Era minha carona até Bodhgaya. Ao chergarmos na rua, vi que 2h30 da madrugada não desanima Gaya. Calçadas tomadas de comércio a todo vapor. não faltavam rickshaws para os ceca de 10km até a pequena cidade. Mas a carona foi mantida. 

O carro estava silencioso e evitei (com muito sacrifício) falar muito. Umas três, quatro perguntas e já estava na frente de um guest house, indicação do assistente indiano de Doug. 

Acordei cedo e fui para rua tentar encontrar um lugar mais barato do que as 400 rupias que me pediram. Encontrei um turista de Hong Kong. Caminhamos um pouco e ele me deu algumas dicas sobre a cidade. As possibilidades de ficar em quartos nos próprios templos. Existem templos de diversas nações que têm o budismo como umas das principais religiões: China, Tibet, Butão, Taiwan, Japão...



Também me mostrou onde ficam os principais templos. Agradeci e encostei num cyber café, onde estou agora. Ao meu lado, dois jovens monges navegam no cyber espaço. Um joga e o outro, no you tube.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Kajuraho tem até canguru perneta


Kajuraho nem parece que é uma cidade que recebe tantos turistas. Como também não parece que um dia foi a capital de uma dinastia. Talvez não parecer seja um dos pontos positivos do lugar, acanhado, ensolarado e cheio de pássaros. Em poucos minutos é possível caminhar pela área central e logo dá para avistar campos e plantações.

A cidade, no norte do estado de Madhyar Pradesh, área central da India, tem no passado os Chandela, uma dinastia dos Rajput que controlou a região por dois séculos (10 a 12). Eles tinham como crença o tantrismo, religião que teria desaparecdio junto com a dinastia. Mas suas marcas reapareceram no século passado e são elas que fazem Kajuraho ser um grande ponto turístico indiano. É na cidade que estão os templos religiosos com esculturas eróticas.


Quando cheguei aqui, tinha a impressão que iria encontrar o Kama Sutra esculpido em Sand Stone. A ideia reforçada pelos vendedores que ficam de fora dos templos, oferecendo livros de fotografia da cidade e edições do Kama Sutra. Mas não, toda aquela variedade que o milenar livro oferece não está presente em Kajuraho. Mas é possível observar interessantes posicionamentos, podemos dizer. Devido ao tempo (falamos de no mínimo 700 anos), algumas esculturas perderam partes, o que provoca até mesmo a alteração das práticas sexuais. O que poderia ser um colinho, por exemplo, vira um canguru perneta e assim vai.



As boas e velhas, põe velhas nisso, também estão lá. Se você procurar bem, como eu fiz, vai ver que sexo com cavalo não é coisa de filme pornô bizarro. Já estava, pelo menos, na cabeça do homem, há muitas gerações. No meio, esculturas de outras atividades comuns, como trabalhos no campo, bandas, danças, animais, soldados. As divindades, como Shiva, Vishnu, Ganesh, entre outras, ganham destaque. São as maiores esculturas, já que os templos foram construídos para sua devoção. 

E é bonito. A Sand Stone é uma pedra em tom amarelado escuro, mas que clareou com o contato do sol. Dentro dos templos, onde não existem esculturas eróticas, a pedra é escura e com uma textura que parece estar sempre úmida. A arquitetura é complexa, cheia de desenhos, tribais e muitos detalhes, em meio às esculturas.

São alguns conjuntos de templos pela cidade. Fui apenas ao western temple, o principal. No passado, foram 85 templos, cada um com seu lago. Hoje, segundo dados oficiais, cerca de 20 e poucos estão lá. Mas também caminhei um pouco para fora da cidade e pude conhecer outros três templos, com ajuda de Hari, um guia que disse odiar a cidade e que espera os turistas para mostrar “a vida indiana real”, na área rural de Kajuraho.



Conheci o templo mais antigo da região, de 900 anos atrás. É chamado 64 yoginis. Uma construção de granito, trazido das montanhas ao redor de Kajuraho. As Yoginis são as as mulheres mestres em Yoga. O templo consiste em 64 pequenos comodos, em pedra, um para cada yogini, em homenagem às deusas da mitologia, Lakshmi, Durga, Parvati, Kali, a principal, e mais 60 delas, que não sei o nome. Segundo o guia. Elas viviam nesses cubículos e toda manhã, se dirigiam ao centro do templo, que não tem teto, para praticar Yoga e meditação.

 Hoje, ele diz que o local ainda é segrado e muitas cerimônias continuam a acontecer. “Na noite anterior houve uma cerimônia”, me disse, apontando cinzas de uma fogueira e restos de velas no centro do local. Ali, se gunco ele, acontecem as pujas, que são esses rituais de devoção e agradecimento às divindades. Do lado de fora, perto de restos de outro templo, vi anéis, pulseiras, flores e outros presentes espalhados pela grama baixa e seca.


Arrumo minha mochila para próxima etapa da viagem.  Vou para Bodhgaya, ver os primórdios do budismo.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Wich country?


Acho que tem sido o principal exercício. Para alguém que fala pouco e ainda menos quando é perguntado, viajar para India é um desafio. O povo indiano é curioso e gosta de falar. Os homens e as crianças. As mulheres, por questões culturais e religiosas, não abrem a boca e mal olham para turistas.

 A primeira pergunta é de onde você vem. Depois, seu nome, se está gostando da India, daí começa a curiosidade. Onde você está hospedado? Quantos dias vai ficar na cidade? No país? É casado? Solteiro? Que livro você está lendo? O que está fotografando? Isso muitas vezes, é levado pelos turistas, como um jeito de malandragem do povo daqui. Mas acho que na maior parte do tempo não é. Apenas o jeito pouco formal deles.

Uma diferença brutal em relação à europa é o olhar. No velho continente, por exemplo, um flerte despretensioso pode ser considerado ofensa e falta de educação. Um canto de olho ou um pescoço comprido podendo gerar confusão.

Já o indiano para e olha. E pode fazer isso de longe, ou de muito perto. Na rua, ou em qualquer lugar. Sem discrição ou embaraço. Se o olhar não for suficiente, um celular sairá do bolso para uma foto roubada, ou um pedido para pose também pode acontecer.

Bom saber que não é você só que olha para um lugar quando o visita. Ele também olha para você. E pode até te pedir uma sorridente foto.

Diário: Missão Kajuraho



Kajuraho é a cidade onde estão os templos dedicados ao Kama Sutra. E para lá fui. Segui as dicas do cara que fazia as reservas de taxi no camp de Khumb Mela. E ai...

4/2/2013 – 7h40
Estou sentado em um banco de metal na estação de trem Allahabad Junction. Saí 6h20 do acampamento no Khumb Mela, de taxi. Comprei uma passagem de segunda classe e vou para Mahoba, ainda em Uttar Pradesh, sentido sul. Lá troco de trem para Kajuraho, que já fica em Madhya Pradesh. Pretendo chegar ainda hoje, no começo da noite. A luz do dia entra pelas grandes e curvelíneas janelas acima do salão, onde muitos estão sentados em bancos de metal. Esperam seus trens. Ao fundo, na avenida, uma imensa placa da Coca Cola.

4/2/2013 – 15h40
Desço em Mahoba. Está quente e a estação é cheia de moscas. A cidade parece ser pequena e humilde. Compro a passagem para Kajuraho, marcada para às 18h. Tento adquirir um jornal indiano onde aparece uma foto em que estou, para guardar de recordação. Mas não acho. Não me empolgo em fazer uma expedição no local, com mala nas costas. Não há lugar para guardar mochilas. Caminho pela estação. Já sentei em alguns bancos, fugindo das moscas. Um dos bezerros come um aviso que estava no mural. Um trem de carga sem carga cruza a estação e para por algum tempo, na plataforma 2. Deve ter quase um quilometro de vagões azuis, alguns poucos vermelhos. Começa a chover e os corvos desconfiados se agitam em uma árvore.

4/2/2013 – 17h30
O trem vai atrasar. Anoitece e ainda não sei que horas chegarei em Kajuraho. Não tenho lugar marcado para dormir por lá. Mas acho que devo chegar umas 22h.

5/2/2013 – 1h43
Após atraso de 7h30, o trem para Kajuraho chega e rápido sai. Estou em um dos primeiros vagões. Poucas pessoas estão nele. Alguns homens e uns idosos. Sento perto da porta, aberta, e de uma janela. Nas últimas horas em Mahoba, o frio apertou. Fui para dentro da sala de espera. Um trio coreano, um homem e duas mulheres aguardava trem para Varanasi. Converso com eles. Me dão dicas sobre Kajuraho e me alertam sobre os cuidados no trem. Estão um pouco assustados. A chuva ficou forte e a sala foi tomada. A luz caiu, voltou e caiu de vez. Lanternas e celulares fazem a iluminação. Um jovem indiano se exibe com músicas altas no celular. Cantarola e gesticula. Muitos esticaram cobertores no chão para dormir. Me encostei numa cadeira, com minhas mochilas. Cochilei por momentos. Cada vez que abria os olhos, mais gente. No início da madrugada, um grande grupo asiático chega e completa o espaço restante. Tiro o cobertor da mochila e logo o trem chega.

5/2/2013 – 4h20

Chego ao hotel Lotus India e, apesar do mal humor do funcionário, fecho um quarto e subo. Quem me deu a dica foi um indiano que puxou papo na estação, quando chegamos. Ele e seus amigos chamaram um rickshaw para buscá-los, pois não havia ninguém quando o trem chegou. Me ofereceram carona e paguei 60 rupias até o tal hotel. Chove forte. Decido usar o dia seguinte para organizar a viagem, caso haja energia elétrica durante o dia, pois quando chego não há. Se antes, pensava em ir ao pé do Himalaia, em Darjeeling, agora mudo os planos. Antes de Varanasi, para a segunda parte do camp (e fim da viagem), decido ir até Calcutá, do lado leste da India. Antes disso, Kajuraho e Budhgaya.
Foram 22h para andar menos de 500km.

Algum tempo no acampamento


Decidi participar do acampamento de forma mais concreta, nos meus quatro dias de reserva. Entrar no clima, na medida do possível e não ficar apenas como observador. Observar e experimentar possibilidades de conexões físicas e espirituais, que ao meu ver, são completamente diferentes de religião.

A organização no camp é baseada na solidariedade e compartilhamento. Todos podem participar da gestão do local: limpeza, organização, música, massagens, yoga e outras atividades. Minha tentativa no voluntariado foi ajudar na construção de um dos jardins, mas uma gripe me arrebatou antes de finalizar no trabalho.

Participei de três dos quatro satsangs que Prem Baba fez durante os dias que estive lá. Satsangs são como encontros entre o mestre e seus seguidores, em que Prem Baba fala sobre determinados temas. Há momentos para meditação, reflexões, silêncios e músicas.

Os bhajans, que são mantras, músicas de devoção divinas, que chegam a ter mais de 3 mil anos, transmitidos oralmente, tanto em Hindi, como em Sânscrito. O mantra mais novo cantado nos dias que estive ali possui 60 anos. Ritmos tradicionais são mantidos, mas interpretações são livres.

No primeiro dia, a banda tocou Hare Krishna em ritmo de Asa Branca e pôs muita gente para dançar e meditar e ao mesmo tempo. Esse é o principal objetivo dos mantras. Todos sorriam. Me veio a memória há quantos anos escuto essa canção, lembro dos Hare krishnas cantando pelas ruas perto do Masp, quando ia com minha mãe ao cinema de Patriarca e descia na consolação para andar até a avenida Paulista.

Prem Baba não usa somente os milenares mantras do hinduismo. Canções sobre as divindades da natureza, a tradição da religiosidade da floresta brasileira também está ali. Tudo muito bonito. As vozes das cantoras e dos músicos do “Pai do Amor”são delicadas e é fácil fechar os olhos para deixar a mente fluir, no que chamam de oceano interior.

Sozinho e nunca sozinho, conheci muita gente no acampamento. Pessoas de todos os lugares morando em outros tantos pedaços do globo. Exemplo, uma das organizadoras do acampamento, que é irlandesa e mora em Manali, no Himalaia. Lugar que queria conhecer, mas os -14 graus me fizeram retroceder. Ou a francesa que mora em Bali e a jornalista das Ilhas Maurício que abandonou as reportagens após conhecer a meditação, mais de 20 anos atrás e que está na India pela 11a vez. E voltei a falar português e até sobre questões os rumos do jornalismo no Brasil.

Assim como a maioria, acordava antes da 7h da manhã. Na tenda, alguns já praticavam meditação enquanto eu espreguiçava. O silêncio impera nos primeiros momentos da manhã. As tendas vão se abrindo, os corredores de tapete verde tomados pelas pessoas que vão aos banheiros. O café da manhã só após a ioga e os alongamentos.


Na hora do café, avisos para manter-se em silêncio, nunca respeitados. À mesa, o impulso pela conversa era maior que qualquer orientação. Alguns comem nas mesas, outros no chão.


Quatro dias foram poucos para compreender o Khumb Mela, mas interessantes pela chance de observação.