quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Chegada a Bodhgaya


Para chegar a Bodhgaya, resolvi usar avião, já que só teria trem em Kajuraho no dia 8 à noite. Comprei uma passagem para Varanasi e de lá, um trem para Gaya e Bodhgaya, um rickshaw depois.  Sai do hotel em Kajuraho e decidi caminhar até o aeroporto, a quatro quilômetros dali. Após uma indicação errada de um menino numa bicicleta, cheguei na frente de um grande hotel onde dois motoristas de bike rickshaw aguardavam clientes. 

A dupla logo veio falar comigo. Perguntei o preço até o aeroporto, já que faltava menos de uma hora para o check in. Foi o começo da briga. Barganhei e acertei um valor, mas os dois já discutiam quem iria me levar, num arranca-rabo nervoso. Cada um puxou sua bicicleta para perto de mim e gritavam. Mandei os dois à merda e decidi ir andando. O mais jovem ainda me seguiu por um bom tempo, pedindo, de quando em quando, para eu subir no rickshaw. Depois desistiu.

Quando cheguei no terminal entendi porque aquela pequena cidade já tinha um aeroporto (e constrói um novo terminal)Um grupo grande de senhores e senhoras, entre italianos (euros), norte-americanos (dólares), israelenses (dólares, euros e muito mais...), entre outros, aguardava na fila para a revista.
Esqueci de guardar meu canivete, que logo virou souvenir para o guarda bigodudo que fingiu estar tenso por revistar minha mala, após o raio X apitar. Fechou a cara e guardou o presente na sua gaveta.


Kajuraho é mais bonita do céu. O vilarejo logo some entre as plantações verdes, os terrenos secos, os pequenos canais de irrigação, as colinas amareladas e cheias de pedras. Cochilei e babei na camiseta, enquanto lia sobre as livrarias de San Francisco. O avião pousou no aeroporto longínquo e moderno (mais de 20km) de Varanasi. Branco, brilhoso e envidraçado como quase todos os novos aeroportos que já vi. Um grande quadro de buda de um lado, uma pintura das margens da Ganga do outro. Sol e poeira do lado de fora. Decidi esperar mais um pouco, antes de seguir para a estação, já que o trem partiria apenas 21h. Ainda eram 15h.

Sai do aeroporto e em meia hora estava na Varanasi Junction. Logo de cara, não fui muito coma cidade. Ainda foi só flerte, mas com o pé atrás para o retorno. Ainda levei uma escarrada na mochila, que o filho da puta deve ter perdido meio litro. Filho da puta. A estação é feia. Parece uma prisão, escura, cheia de grades. O hall é pequeno e as pessoas, centenas delas, se acomodam no chão, aguardando as informações no letreiro. 

Ainda tinha mais de uma hora até o trem. Fui a um restaurante e mais uma vez vi que o comerciante indiano fica puto e não esconde isso quando você consome coisas baratas.  Pedi um mix de vegetais e um arroz simples. O arroz veio gelado. O preço era pouco, comi, paguei e fui embora. Aguardei na plataforma até o trem parar, com cerca de uma hora e meia de atraso. Era melhor, assim chegava mais tarde em Gaya e ficaria menos tempo na estação até conseguir um rickshaw para Bodhgaya.

A viagem foi tranquila e quando o trem se aproximava, vi que o cara no banco da frente era gringo. Puxei papo e ele ia para Bodhgaya também. Um coroa com nome mais norte-americano possível, Doug. Ele trabalha há mais de 20 anos entre India e EUA, em um instituto. Era minha carona até Bodhgaya. Ao chergarmos na rua, vi que 2h30 da madrugada não desanima Gaya. Calçadas tomadas de comércio a todo vapor. não faltavam rickshaws para os ceca de 10km até a pequena cidade. Mas a carona foi mantida. 

O carro estava silencioso e evitei (com muito sacrifício) falar muito. Umas três, quatro perguntas e já estava na frente de um guest house, indicação do assistente indiano de Doug. 

Acordei cedo e fui para rua tentar encontrar um lugar mais barato do que as 400 rupias que me pediram. Encontrei um turista de Hong Kong. Caminhamos um pouco e ele me deu algumas dicas sobre a cidade. As possibilidades de ficar em quartos nos próprios templos. Existem templos de diversas nações que têm o budismo como umas das principais religiões: China, Tibet, Butão, Taiwan, Japão...



Também me mostrou onde ficam os principais templos. Agradeci e encostei num cyber café, onde estou agora. Ao meu lado, dois jovens monges navegam no cyber espaço. Um joga e o outro, no you tube.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Kajuraho tem até canguru perneta


Kajuraho nem parece que é uma cidade que recebe tantos turistas. Como também não parece que um dia foi a capital de uma dinastia. Talvez não parecer seja um dos pontos positivos do lugar, acanhado, ensolarado e cheio de pássaros. Em poucos minutos é possível caminhar pela área central e logo dá para avistar campos e plantações.

A cidade, no norte do estado de Madhyar Pradesh, área central da India, tem no passado os Chandela, uma dinastia dos Rajput que controlou a região por dois séculos (10 a 12). Eles tinham como crença o tantrismo, religião que teria desaparecdio junto com a dinastia. Mas suas marcas reapareceram no século passado e são elas que fazem Kajuraho ser um grande ponto turístico indiano. É na cidade que estão os templos religiosos com esculturas eróticas.


Quando cheguei aqui, tinha a impressão que iria encontrar o Kama Sutra esculpido em Sand Stone. A ideia reforçada pelos vendedores que ficam de fora dos templos, oferecendo livros de fotografia da cidade e edições do Kama Sutra. Mas não, toda aquela variedade que o milenar livro oferece não está presente em Kajuraho. Mas é possível observar interessantes posicionamentos, podemos dizer. Devido ao tempo (falamos de no mínimo 700 anos), algumas esculturas perderam partes, o que provoca até mesmo a alteração das práticas sexuais. O que poderia ser um colinho, por exemplo, vira um canguru perneta e assim vai.



As boas e velhas, põe velhas nisso, também estão lá. Se você procurar bem, como eu fiz, vai ver que sexo com cavalo não é coisa de filme pornô bizarro. Já estava, pelo menos, na cabeça do homem, há muitas gerações. No meio, esculturas de outras atividades comuns, como trabalhos no campo, bandas, danças, animais, soldados. As divindades, como Shiva, Vishnu, Ganesh, entre outras, ganham destaque. São as maiores esculturas, já que os templos foram construídos para sua devoção. 

E é bonito. A Sand Stone é uma pedra em tom amarelado escuro, mas que clareou com o contato do sol. Dentro dos templos, onde não existem esculturas eróticas, a pedra é escura e com uma textura que parece estar sempre úmida. A arquitetura é complexa, cheia de desenhos, tribais e muitos detalhes, em meio às esculturas.

São alguns conjuntos de templos pela cidade. Fui apenas ao western temple, o principal. No passado, foram 85 templos, cada um com seu lago. Hoje, segundo dados oficiais, cerca de 20 e poucos estão lá. Mas também caminhei um pouco para fora da cidade e pude conhecer outros três templos, com ajuda de Hari, um guia que disse odiar a cidade e que espera os turistas para mostrar “a vida indiana real”, na área rural de Kajuraho.



Conheci o templo mais antigo da região, de 900 anos atrás. É chamado 64 yoginis. Uma construção de granito, trazido das montanhas ao redor de Kajuraho. As Yoginis são as as mulheres mestres em Yoga. O templo consiste em 64 pequenos comodos, em pedra, um para cada yogini, em homenagem às deusas da mitologia, Lakshmi, Durga, Parvati, Kali, a principal, e mais 60 delas, que não sei o nome. Segundo o guia. Elas viviam nesses cubículos e toda manhã, se dirigiam ao centro do templo, que não tem teto, para praticar Yoga e meditação.

 Hoje, ele diz que o local ainda é segrado e muitas cerimônias continuam a acontecer. “Na noite anterior houve uma cerimônia”, me disse, apontando cinzas de uma fogueira e restos de velas no centro do local. Ali, se gunco ele, acontecem as pujas, que são esses rituais de devoção e agradecimento às divindades. Do lado de fora, perto de restos de outro templo, vi anéis, pulseiras, flores e outros presentes espalhados pela grama baixa e seca.


Arrumo minha mochila para próxima etapa da viagem.  Vou para Bodhgaya, ver os primórdios do budismo.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Wich country?


Acho que tem sido o principal exercício. Para alguém que fala pouco e ainda menos quando é perguntado, viajar para India é um desafio. O povo indiano é curioso e gosta de falar. Os homens e as crianças. As mulheres, por questões culturais e religiosas, não abrem a boca e mal olham para turistas.

 A primeira pergunta é de onde você vem. Depois, seu nome, se está gostando da India, daí começa a curiosidade. Onde você está hospedado? Quantos dias vai ficar na cidade? No país? É casado? Solteiro? Que livro você está lendo? O que está fotografando? Isso muitas vezes, é levado pelos turistas, como um jeito de malandragem do povo daqui. Mas acho que na maior parte do tempo não é. Apenas o jeito pouco formal deles.

Uma diferença brutal em relação à europa é o olhar. No velho continente, por exemplo, um flerte despretensioso pode ser considerado ofensa e falta de educação. Um canto de olho ou um pescoço comprido podendo gerar confusão.

Já o indiano para e olha. E pode fazer isso de longe, ou de muito perto. Na rua, ou em qualquer lugar. Sem discrição ou embaraço. Se o olhar não for suficiente, um celular sairá do bolso para uma foto roubada, ou um pedido para pose também pode acontecer.

Bom saber que não é você só que olha para um lugar quando o visita. Ele também olha para você. E pode até te pedir uma sorridente foto.

Diário: Missão Kajuraho



Kajuraho é a cidade onde estão os templos dedicados ao Kama Sutra. E para lá fui. Segui as dicas do cara que fazia as reservas de taxi no camp de Khumb Mela. E ai...

4/2/2013 – 7h40
Estou sentado em um banco de metal na estação de trem Allahabad Junction. Saí 6h20 do acampamento no Khumb Mela, de taxi. Comprei uma passagem de segunda classe e vou para Mahoba, ainda em Uttar Pradesh, sentido sul. Lá troco de trem para Kajuraho, que já fica em Madhya Pradesh. Pretendo chegar ainda hoje, no começo da noite. A luz do dia entra pelas grandes e curvelíneas janelas acima do salão, onde muitos estão sentados em bancos de metal. Esperam seus trens. Ao fundo, na avenida, uma imensa placa da Coca Cola.

4/2/2013 – 15h40
Desço em Mahoba. Está quente e a estação é cheia de moscas. A cidade parece ser pequena e humilde. Compro a passagem para Kajuraho, marcada para às 18h. Tento adquirir um jornal indiano onde aparece uma foto em que estou, para guardar de recordação. Mas não acho. Não me empolgo em fazer uma expedição no local, com mala nas costas. Não há lugar para guardar mochilas. Caminho pela estação. Já sentei em alguns bancos, fugindo das moscas. Um dos bezerros come um aviso que estava no mural. Um trem de carga sem carga cruza a estação e para por algum tempo, na plataforma 2. Deve ter quase um quilometro de vagões azuis, alguns poucos vermelhos. Começa a chover e os corvos desconfiados se agitam em uma árvore.

4/2/2013 – 17h30
O trem vai atrasar. Anoitece e ainda não sei que horas chegarei em Kajuraho. Não tenho lugar marcado para dormir por lá. Mas acho que devo chegar umas 22h.

5/2/2013 – 1h43
Após atraso de 7h30, o trem para Kajuraho chega e rápido sai. Estou em um dos primeiros vagões. Poucas pessoas estão nele. Alguns homens e uns idosos. Sento perto da porta, aberta, e de uma janela. Nas últimas horas em Mahoba, o frio apertou. Fui para dentro da sala de espera. Um trio coreano, um homem e duas mulheres aguardava trem para Varanasi. Converso com eles. Me dão dicas sobre Kajuraho e me alertam sobre os cuidados no trem. Estão um pouco assustados. A chuva ficou forte e a sala foi tomada. A luz caiu, voltou e caiu de vez. Lanternas e celulares fazem a iluminação. Um jovem indiano se exibe com músicas altas no celular. Cantarola e gesticula. Muitos esticaram cobertores no chão para dormir. Me encostei numa cadeira, com minhas mochilas. Cochilei por momentos. Cada vez que abria os olhos, mais gente. No início da madrugada, um grande grupo asiático chega e completa o espaço restante. Tiro o cobertor da mochila e logo o trem chega.

5/2/2013 – 4h20

Chego ao hotel Lotus India e, apesar do mal humor do funcionário, fecho um quarto e subo. Quem me deu a dica foi um indiano que puxou papo na estação, quando chegamos. Ele e seus amigos chamaram um rickshaw para buscá-los, pois não havia ninguém quando o trem chegou. Me ofereceram carona e paguei 60 rupias até o tal hotel. Chove forte. Decido usar o dia seguinte para organizar a viagem, caso haja energia elétrica durante o dia, pois quando chego não há. Se antes, pensava em ir ao pé do Himalaia, em Darjeeling, agora mudo os planos. Antes de Varanasi, para a segunda parte do camp (e fim da viagem), decido ir até Calcutá, do lado leste da India. Antes disso, Kajuraho e Budhgaya.
Foram 22h para andar menos de 500km.

Algum tempo no acampamento


Decidi participar do acampamento de forma mais concreta, nos meus quatro dias de reserva. Entrar no clima, na medida do possível e não ficar apenas como observador. Observar e experimentar possibilidades de conexões físicas e espirituais, que ao meu ver, são completamente diferentes de religião.

A organização no camp é baseada na solidariedade e compartilhamento. Todos podem participar da gestão do local: limpeza, organização, música, massagens, yoga e outras atividades. Minha tentativa no voluntariado foi ajudar na construção de um dos jardins, mas uma gripe me arrebatou antes de finalizar no trabalho.

Participei de três dos quatro satsangs que Prem Baba fez durante os dias que estive lá. Satsangs são como encontros entre o mestre e seus seguidores, em que Prem Baba fala sobre determinados temas. Há momentos para meditação, reflexões, silêncios e músicas.

Os bhajans, que são mantras, músicas de devoção divinas, que chegam a ter mais de 3 mil anos, transmitidos oralmente, tanto em Hindi, como em Sânscrito. O mantra mais novo cantado nos dias que estive ali possui 60 anos. Ritmos tradicionais são mantidos, mas interpretações são livres.

No primeiro dia, a banda tocou Hare Krishna em ritmo de Asa Branca e pôs muita gente para dançar e meditar e ao mesmo tempo. Esse é o principal objetivo dos mantras. Todos sorriam. Me veio a memória há quantos anos escuto essa canção, lembro dos Hare krishnas cantando pelas ruas perto do Masp, quando ia com minha mãe ao cinema de Patriarca e descia na consolação para andar até a avenida Paulista.

Prem Baba não usa somente os milenares mantras do hinduismo. Canções sobre as divindades da natureza, a tradição da religiosidade da floresta brasileira também está ali. Tudo muito bonito. As vozes das cantoras e dos músicos do “Pai do Amor”são delicadas e é fácil fechar os olhos para deixar a mente fluir, no que chamam de oceano interior.

Sozinho e nunca sozinho, conheci muita gente no acampamento. Pessoas de todos os lugares morando em outros tantos pedaços do globo. Exemplo, uma das organizadoras do acampamento, que é irlandesa e mora em Manali, no Himalaia. Lugar que queria conhecer, mas os -14 graus me fizeram retroceder. Ou a francesa que mora em Bali e a jornalista das Ilhas Maurício que abandonou as reportagens após conhecer a meditação, mais de 20 anos atrás e que está na India pela 11a vez. E voltei a falar português e até sobre questões os rumos do jornalismo no Brasil.

Assim como a maioria, acordava antes da 7h da manhã. Na tenda, alguns já praticavam meditação enquanto eu espreguiçava. O silêncio impera nos primeiros momentos da manhã. As tendas vão se abrindo, os corredores de tapete verde tomados pelas pessoas que vão aos banheiros. O café da manhã só após a ioga e os alongamentos.


Na hora do café, avisos para manter-se em silêncio, nunca respeitados. À mesa, o impulso pela conversa era maior que qualquer orientação. Alguns comem nas mesas, outros no chão.


Quatro dias foram poucos para compreender o Khumb Mela, mas interessantes pela chance de observação.

Khumb Mela


O Khumb Mela é o maior festival religioso do mundo. Minha descoberta faltando apenas um mês para chegar à India. O mundo ocidental cristão não abre a janela para a gente ver isso. A Globo, por exemplo, vai para o Khumb Mela só agora, usando Prem Baba como gancho.


Ele ocorre nas cidades de Allahabad, Haridwar, Nasik e Ujjain. A cada 12 temporadas, ele toma Allahabad, cidade localizada no estado de Uttar Pradesh (centro do país) na junção dos rios Yamuna e Ganga, para o Maha (maior) Khumb Mela. Essa é um dos motivos que faz o local ser considerado especial, sagrado para os indianos e suas múltiplas seitas.

A lenda diz que em , após uma batalha entre Deuses e Dêmonios, o amrit, o néctar da imortalidade, teria caído neste local. Desde então, o Khumb Mela ocorre. Suas datas principais são os banhos sagrados nas águas dos dois rios. É a procura por um pouco da graça deste néctar que atrai cada vez mais pessoas, trazidas por seus líderes espirituais.

Além dos gurus, Babas, mestres e seus seguidores, o Khumb recebe os sadhus, os homens santos da religião indu, que chegam de todas as formas de todo o país.

Mas não é só a religião predominante que está no evento. Camps de outras crenças também marcam presença. Dalai Lama, representante máximo do budismo está lá, os muçulmanos estão também.


O Khumb Mela também serve de encontro entre a política espiritual e religiosa com a tradicional. Em alguns dos eventos socioambientais realizados no camp 13, também de Prem Baba, em divisão com Swami Chidanada Ji, o governador de Uttar Pradesh, chamado de “ Governador Verde” esteve presente.


Com a decisão de adentrar ao ambiente proposto no camp de Prem Baba, além da gripe que me derrubou por um dia, tive apenas uma oportunidade de caminhar pelo lado mais efervescente do Khumb. Tive a oportunidade de ver o momento em que centenas de Sadhus são alimentados, no fim da tarde, à beira da Ganga. Percebi o quanto transforma a própria distribuição da população de Allahabad. Muitos habitantes da cidade saem de suas casas e se mudam para o festival. Foi mais um momento em que percebi (não quer dizer que entendi) a complexidade da sociedade indiana e seus mais de 1 bilhão de personagens.

Vi pouquissimos estrangeiros e observei que muitos locais preferem assim. Pude fazer algumas tentativas de retratos, já que tanta gente pede fotografias. Fui alertado sobre os trombadinhas. E por esse alerta, me pediram um trocado.

Também acompanhei, na caravana de Prem Baba, eventos religiosos, ambientais, sociais e políticos. Participei de um encontro no Sachcha Ashram, perto de nosso acampamento. Lá estava Prem Baba e outros gurus, como Swami Chidananda Ji. Ashram é um local onde se busca, através de um líder religioso, o retiro para evolução espiritual, em um resumo bem resumido.

As margens do Yamuna, próximo à Ganga, acompanhei um acordo entre líderes espirituais e humanitários para a despoluição do sagrado rio. Dalai Lama disse que ia. Mas furou. Um representante esteve em seu lugar e deve ter frustrado a imprensa, que encheu barco com as cores da India.


Eu queria ter visto o Dalai Lama. De campanhas para despoluição já estou calejado. As intenções podem ser boas. Talvez a ação feita por líderes religiosos seja uma cartada para chamar melhor a atenção da população, claramente pouco preocupada com questões sanitárias, mas ainda fortemente influenciada pelas crenças.

O problema, de certo ponto de vista, torna-se outro. Que postura terá a própria religião, nada acostumada a fazer críticas a seus fiéis, para colocar esse dedo na ferida? Se religião é conforto, quem terá coragem para pisar nos ovos? Como?

E como fazer um programa de despoluição de um rio sem tratar da questão do consumo, do crescimento das cidades, da densidade populacional. Que religião já falou sobre controle populacional? Quem quer perder rebanho?

Chegada em Allahabad - Maha Khumb Mela



Uma hora depois das dentadas nos biscoitos psicodélicos de Jaisalmer jogava a mochila nas costas para deixar o hotel em Agra. Segui o motorista do Rickshaw com os olhos pequenos e os ouvidos atentos à música que emanava de um casamento, num prédio ao lado. Algumas árvores, grandes, árvores, ficam no das avenidas principais. Os carros que desviem.

No terminal Cantonment Agra de trem, luzes vermelhas dos letreiros em meio à fumaça e gente e malas e panos e olhares. Parei logo no começo da plataforma 4, perto de dois coreanos. Gravei uma imagem de um trem de carga, que demorou mais de três minutos para que todos os vagões sumissem da minha frente. Um casal brigava na plataforma três. Ela batia nele. Aos poucos a raiva parece que se foi e eles sentaram-se lado a lado em um banco. Ratos vasculhavam os trilhos. Ratos grandes.

Enquanto isso pensava na batalha caótica entre a cultura e as tradições milenares indianas diante da sociedade de consumo. Será isso o motivo da organização de alguns setores das cidades, da sujeira? Não era assim antes? Como era antes? E por quanto tempo o olhar pouco agressivo (minha opinião) dos indianos diante dos turistas ainda permanecerá?
Ou será que não é batalha? São só dificuldades para adaptação de um relacionamento suicida (pelo menos ao meio ambiente). Estava indo e indo com pensamento acelerado e feições tranquilas, quase de olho fechado.

Nessas, o trem chegou e andei calmo até o outro lado da plataforma. Vagão S1, acento 54 da classe sleeper, a mesma da viagem Mumbai-Goa. Lancei as malas pra cima e subi.

Acordei 5h da matina, horário previsto para a chegada em Allahabad. Mas estávamos lá. Poderia ter dormido mais uma hora e meia se não fosse o dono babaca do despertador, tocando de 5 em 5 minutos.


Paguei uma bica no taxi. Estava frio e vi uma menina com o nariz sujo e sorrindo com as mãos próximas à fogueira, ao subirmos uma ponte. Na entrada da área fechada ao Khumb Mela, um grande comércio de flores laranjas é aquecido ainda aos primeiros raios da manhã. São as flores de oferendas.

O motorista me deixou numa rua de terra com neblina, dizendo que era o portão 14. Quilômetros e mais quilômetros de tendas às margens dos rios Yamuna e Ganges (a Ganga). O Khumb Mela de 2013, o Maha Khumb Mela, acontece na junção dos rios. Encontrei o camp e sentado e enrolado no cobertor, assisti uma aula de yoga e tomei café da manhã enquanto o Welcome Center não abria.

Estava no Camp Together 2013, feito por Prem Baba. Ele é um líder espiritual nascido no Brasil, que tem seguidores em diversas partes do mundo. Da linhagem Sachcha, Prem Baba atua na união espiritual entre oriente e ocidente. Ele divide seu tempo entre o Brasil e a India, nos Ashram's no interior de São Paulo e em Rishkesh. É chamado de Guru do Amor. Ele é também considerado um líder humanitário e abrange seu trabalho em ações socio-ambientais, principalmente.



O Khumb Mela tem uma organização impressionante. Cerca de 70 milhões de pessoas devem passar pelo festival, que começou em 14 de janeiro e vai até meados de março. SWU, Woodstock? Glastonbury Esqueça. É outra dimensão. Allahabad é tomada por tendas e barracas e lonas, em grandes e pequenos, organizados, simples, estruturados, acanhados e desorganizados acampamentos. Além da área principal, à beira dos rios, muitas outras partes da cidade são preenchidos por gente que vem de toda a India e outras partes do mundo, dentro e fora de áreas demarcadas. É uma cidade que se acomoda  mais de dois meses dentro de outra. E como uma cidade, existe água, energia, banheiros para muitos, não todos. Para o lixo e esgoto, buracos são abertos às margens dos rios, que meses adiante, cobrirão todo aquele espaço. Este Khumb, o Maha, ocorre de 12 em 12 anos.

Fiz o check in e fui para minha tenda, número 20. Dois argentinos, um chegou depois, um inglês e outro brasileiro (um saiu, outro chegou).
Depois de tantos e-mails precavidos sobre a situação no acampamento, estava em um hotel. O camp tem tudo, até água quente, quando necessário. Comida boa e farta (spice ou no spice), três vezes ao dia, cama, cobertores e a aula de Yoga, que não fiz.

Após um banho, fui à pé até o camp 13, onde seria realizado o Satsang com Prem Baba. Dois quilômetros de caminhada para perceber que estávamos na márgem tranquila do Khumb Mela. O núcleo estava ali, ao lado e eu ouvia seus poderes. Pontes baixas construídas sobre grandes boias metálicas ligavam todos as margens do evento. Mas o transporte por barcos é rico. Centenas, para não dizer milhares de barqueiros ofertam seus serviços.

Em todo o terreno destinado ao Khumb Mela à beira dos rios, postes de energia e alto falantes, estes, ligados quase 24h, transmitindo toda a série de rituais, discursos, satsangs, músicas, mantras...